Título:
A formação do analista, uma formação do inconsciente: Um sonho.
Subtema: A formação do psicanalista e a transmissão da
psicanálise: na Escola, na universidade, na saúde, na educação e em outros
campos.
Às
voltas com o seminário 5 de Lacan, 1957-8, as formações do inconsciente e
estudando sobre este tema da formação do analista, a enigmática citação de
1973, causa! “Eu nunca falei de formação analítica, falei de formações do
inconsciente. Não há formação do analista”.[1]
O
que quer dizer isto? Que da análise tira-se uma experiência. Já que toda
análise é didática ou seria melhor falar em psicanálise pura?[2]
Desde
modo, há uma articulação entre 1957 e 73 uma vez que as formações inconscientes
dá mostras, de um analista. “O que
chamamos de formações do inconsciente, que Freud nos apresentou com esse nome,
de formações do inconsciente é unicamente a apreensão de um certo primarismo na
linguagem que, é tecido... textura de linguagem”.[3] Portanto, se forma enquanto sonho, ato-falho,
chiste? Trata-se, portanto de um ato!
Um
ato vale dizer, com Freud 1976 e 1916[4], Fehlleistungen, atos falhos, funções falhas, lapsos — formações do
inconsciente polissêmico que revelam a divisão subjetiva. Um ato marca um antes
e um depois, dado que, diferentemente de uma ação motora, qualquer, precisa,
necessariamente, introduzir uma descontinuidade, um corte. Um ato requer uma
qualidade de presença que ultrapassa a vontade e a consciência.
Sem
contar com a possibilidade chistosa que isso também revela. Um estilo.
Enquanto, traço e marca singular, deste analista. Formação do inconsciente que
se revela, deformação, uma vez que consiste em se confrontar a esse toque
do real que não cessará de atormentar o sujeito que terá aceito de a ele se
expor.
Podemos
dizer, que é pela falha que se possibilita produzir um analista. Portanto, como
nos diz Lacan, um “autorizar-se, não significa auto-rit(uali)zar-se...que é do
não-todo que depende o analista.”[5]. Por aí, ele tentou fazer
passar seu passe e que o resultado é algo inteiramente novo. O passe tem
efeitos nos que se apresentam a ele.
É
isto, que estamos associando a formação do analista. Que dê um lapso, um
ato-falho, um sonho e até mesmo um chiste, um analista aí está. Portanto, o
analista não é autorizado por ninguém, ele se autoriza por si mesmo. [...] Não
existe o Outro da autorização. A partir de que, então, o analisante se autoriza
analista? Ele se autoriza a partir de seu trabalho analítico, do deciframento
de seu inconsciente, o que não é independente de seu trabalho de transferência
– do que ele faz da relação transferencial estabelecida com seu analista[6].
O
analisante, em seu processo de se tornar analista, forma seu inconsciente, que
até então, se manifestava apenas sob os auspícios das “formações do
inconsciente” (sonhos, lapsos, sintomas…). Ele o forma não apenas como lugar de
um saber não sabido, mas igualmente como estrutura em torno de um ponto
incognoscível ou como “o impossível de reconhecer.
Esta
experiência sob transferência do inconsciente poderá, então, desembocar não
apenas na melhora da posição do sujeito, mas igualmente na articulação de um
saber preexistente, ainda que insabido, e de um desejo singular. Eis aqui a
única e verdadeira base do que temos o hábito de nomear formação analítica.
Não
há formação analítica para além do divã, poderíamos resumir. Há apenas uma
formação do inconsciente que conduz a se tornar analista, formação
eminentemente singular que Lacan indexa sob o nome de “desejo do analista”.[7]
O
desejo do analista é o desejo de obter a diferença absoluta O desejo do
analista é o ponto absoluto. Isto é, que o sujeito saiba o que ele é. O desejo
do analista é fazer semblante de a para que o paciente possa encenar, não no
palco, mas abaixo dele, na plateia, sua cena. Dizendo de outra forma, savoir faire com seu sinthoma.[8].
O desejo do analista é sua oferta. O analista faz semblante de objeto para
o sujeito do inconsciente.
É
preciso ter ido longe o bastante na própria análise para que este desejo
advenha. Este desejo inédito leva em conta um saber sobre o real. E por haver
esse desejo é que pode - se oferecer-se como semblante de objeto para um outro
e sustentar as análises. Este é também um compromisso ético com a causa analítica, pois este saber é
construído. E por ter passado por esta experiência com a castração, terá um
entusiasmo que o coloca sempre a trabalho que se tornou causa. [9]
O
desejo de analista, também precisa dar essa notícia e demonstração de que algo
da sua análise produziu uma maneira outra de se relacionar com a satisfação
pulsional. O desejo de analista é a prova de um destino pulsional que não se
sustenta sem estilo. Também nos lembra que o
passe como procedimento institucional não é exame obrigatório; mas o
passe como momento clínico é provação necessária de todo e qualquer analista. O
analista valida ele mesmo a sua passagem pela sua presença na comunidade
analítica, a sua fala, os seus escritos, a sua “práxis” da teoria. A análise de
um analista será dita didática se ele mesmo puder dar as provas dessa passagem
à posição de analista[10]
E ainda que uma psicanálise tenha
algo de intransmissível, fiquemos com a citação lacaniana de que: “Cada psicanalista seja forçado
a reinventar a psicanálise”[11] não sem outros, a escola
e seus dispositivos e dizer se seu percurso, de sua passagem a psicanalista,
seu ponto de finitude, de seu desejo de analista com a responsabilidade em
fazer ressoar este toque do real que os fez psicanalista. Um sonho, um ato.
Referências:
BRUNETTO, A. diabo e suas máscaras: a tríade infernal do
desejo. São Paulo: Aller, 2023. P. 189.
FREUD, S. Os atos
falhos. Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras. 1916.
FREUD, S. A
psicopatologia da vida cotidiana. Obras Completas. Vol VI. Rio de Janeiro: Imago. 1976.
FINGERMANN,
Dominique. A análise dos analistas. Disponível em: Jornal74.pdf. Acesso em: 30/08/2025.
LACAN, Jacques.
Seminário 5: As formações do Inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
LACAN, Jacques.
Sobre a experiência do passe. A respeito da experiência do passe e de sua
transmissão. Tradução: Ana Lúcia Teixeira Ribeiro. In: Documentos para uma
Escola II. Lacan e o passe. Letra Freudiana- Escola Psicanálise e transmissão.
Ano XIV, N. 0. P.57. 1973-1995.
LACAN, Nota
Italiana, Outros Escritos, Zahar, p. 311-312. 2003.
____. Conclusões Congresso sobre a transmissão In:
Documentos para uma Escola II: Lacan e o Passe. Documento de circulação interna
da Letra Freudiana – Escola Psicanálise e Transmissão. Rio de Janeiro: ano XIV, nº 0. 1978-1995.
MACHADO, Zilda. Da
angústia ao desejo do analista. Disponível em:
hhttps://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952008000200004.
Acesso em: 30/08/2025.
QUINET,
A. A estranheza da psicanálise: a escola de Lacan e seus analistas. Rio de
Janeiro: Zahar, 2009.
VIVES, Jean
Michel. Não há formação analítica. Disponível em: https://revistalacuna.com/2023/12/19/n-15-04/. Acesso em:
22/08/2025.
[1]
Lacan, 1973, p. 57 sobre a experiência do passe
[2] Lacan, 1973, p. 57 sobre a
experiência do passe
[3] Lacan, 1957-8, p. 369
[4] Freud, 1976 em a psicopatologia da
vida cotidiana e nas conferências introdutórias, 1916.
[5] Lacan,
1973, Nota Italiana
[6] Quinet,
2009, p. 114-115
[8] Brunetto,2023, p 189
[9] Machado, 2008.
[10] Fingermann, 2008
[11] Lacan,
1978/1995. P. 66
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