quarta-feira, 8 de julho de 2026

A formação do analista, uma formação do inconsciente: Um sonho.

 

Título: A formação do analista, uma formação do inconsciente: Um sonho.

Subtema:  A formação do psicanalista e a transmissão da psicanálise: na Escola, na universidade, na saúde, na educação e em outros campos.

 

Às voltas com o seminário 5 de Lacan, 1957-8, as formações do inconsciente e estudando sobre este tema da formação do analista, a enigmática citação de 1973, causa! “Eu nunca falei de formação analítica, falei de formações do inconsciente. Não há formação do analista”.[1]

O que quer dizer isto? Que da análise tira-se uma experiência. Já que toda análise é didática ou seria melhor falar em psicanálise pura?[2]

Desde modo, há uma articulação entre 1957 e 73 uma vez que as formações inconscientes dá mostras, de um analista.   “O que chamamos de formações do inconsciente, que Freud nos apresentou com esse nome, de formações do inconsciente é unicamente a apreensão de um certo primarismo na linguagem que, é tecido... textura de linguagem”.[3]  Portanto, se forma enquanto sonho, ato-falho, chiste? Trata-se, portanto de um ato!

Um ato vale dizer, com Freud 1976 e 1916[4], Fehlleistungen, atos falhos, funções falhas, lapsos — formações do inconsciente polissêmico que revelam a divisão subjetiva. Um ato marca um antes e um depois, dado que, diferentemente de uma ação motora, qualquer, precisa, necessariamente, introduzir uma descontinuidade, um corte. Um ato requer uma qualidade de presença que ultrapassa a vontade e a consciência.

Sem contar com a possibilidade chistosa que isso também revela. Um estilo. Enquanto, traço e marca singular, deste analista. Formação do inconsciente que se revela, deformação, uma vez que consiste em se confrontar a esse toque do real que não cessará de atormentar o sujeito que terá aceito de a ele se expor.

Podemos dizer, que é pela falha que se possibilita produzir um analista. Portanto, como nos diz Lacan, um “autorizar-se, não significa auto-rit(uali)zar-se...que é do não-todo que depende o analista.”[5]. Por aí, ele tentou fazer passar seu passe e que o resultado é algo inteiramente novo. O passe tem efeitos nos que se apresentam a ele.

É isto, que estamos associando a formação do analista. Que dê um lapso, um ato-falho, um sonho e até mesmo um chiste, um analista aí está. Portanto, o analista não é autorizado por ninguém, ele se autoriza por si mesmo. [...] Não existe o Outro da autorização. A partir de que, então, o analisante se autoriza analista? Ele se autoriza a partir de seu trabalho analítico, do deciframento de seu inconsciente, o que não é independente de seu trabalho de transferência – do que ele faz da relação transferencial estabelecida com seu analista[6].

O analisante, em seu processo de se tornar analista, forma seu inconsciente, que até então, se manifestava apenas sob os auspícios das “formações do inconsciente” (sonhos, lapsos, sintomas…). Ele o forma não apenas como lugar de um saber não sabido, mas igualmente como estrutura em torno de um ponto incognoscível ou como “o impossível de reconhecer.

Esta experiência sob transferência do inconsciente poderá, então, desembocar não apenas na melhora da posição do sujeito, mas igualmente na articulação de um saber preexistente, ainda que insabido, e de um desejo singular. Eis aqui a única e verdadeira base do que temos o hábito de nomear formação analítica.

Não há formação analítica para além do divã, poderíamos resumir. Há apenas uma formação do inconsciente que conduz a se tornar analista, formação eminentemente singular que Lacan indexa sob o nome de “desejo do analista”.[7]

O desejo do analista é o desejo de obter a diferença absoluta O desejo do analista é o ponto absoluto. Isto é, que o sujeito saiba o que ele é. O desejo do analista é fazer semblante de a para que o paciente possa encenar, não no palco, mas abaixo dele, na plateia, sua cena. Dizendo de outra forma, savoir faire com seu sinthoma.[8]. O desejo do analista é sua oferta. O analista faz semblante de objeto para o sujeito do inconsciente.

É preciso ter ido longe o bastante na própria análise para que este desejo advenha. Este desejo inédito leva em conta um saber sobre o real. E por haver esse desejo é que pode - se oferecer-se como semblante de objeto para um outro e sustentar as análises. Este é também um compromisso ético com  a causa analítica, pois este saber é construído. E por ter passado por esta experiência com a castração, terá um entusiasmo que o coloca sempre a trabalho que se tornou causa. [9]

O desejo de analista, também precisa dar essa notícia e demonstração de que algo da sua análise produziu uma maneira outra de se relacionar com a satisfação pulsional. O desejo de analista é a prova de um destino pulsional que não se sustenta sem estilo. Também nos lembra que o  passe como procedimento institucional não é exame obrigatório; mas o passe como momento clínico é provação necessária de todo e qualquer analista. O analista valida ele mesmo a sua passagem pela sua presença na comunidade analítica, a sua fala, os seus escritos, a sua “práxis” da teoria. A análise de um analista será dita didática se ele mesmo puder dar as provas dessa passagem à posição de analista[10]

            E ainda que uma psicanálise tenha algo de intransmissível, fiquemos com a citação lacaniana de que: “Cada psicanalista seja forçado a reinventar a psicanálise”[11] não sem outros, a escola e seus dispositivos e dizer se seu percurso, de sua passagem a psicanalista, seu ponto de finitude, de seu desejo de analista com a responsabilidade em fazer ressoar este toque do real que os fez psicanalista. Um sonho, um ato.

 


Referências:

BRUNETTO, A.  diabo e suas máscaras: a tríade infernal do desejo. São Paulo: Aller, 2023. P. 189.

FREUD, S. Os atos falhos. Obras Completas. São Paulo: Companhia das Letras. 1916.

FREUD, S. A psicopatologia da vida cotidiana. Obras Completas. Vol  VI. Rio de Janeiro: Imago. 1976.

FINGERMANN, Dominique. A análise dos analistas. Disponível em: Jornal74.pdf. Acesso em: 30/08/2025.

LACAN, Jacques. Seminário 5: As formações do Inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar, 1999.

LACAN, Jacques. Sobre a experiência do passe. A respeito da experiência do passe e de sua transmissão. Tradução: Ana Lúcia Teixeira Ribeiro. In: Documentos para uma Escola II. Lacan e o passe. Letra Freudiana- Escola Psicanálise e transmissão. Ano XIV, N. 0. P.57. 1973-1995.

LACAN, Nota Italiana, Outros Escritos, Zahar, p. 311-312. 2003.

____.  Conclusões Congresso sobre a transmissão In: Documentos para uma Escola II: Lacan e o Passe. Documento de circulação interna da Letra Freudiana – Escola Psicanálise e Transmissão. Rio de Janeiro:  ano XIV, nº 0. 1978-1995.

MACHADO, Zilda. Da angústia ao desejo do analista. Disponível em: hhttps://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-73952008000200004. Acesso em: 30/08/2025.

 QUINET, A. A estranheza da psicanálise: a escola de Lacan e seus analistas. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

VIVES, Jean Michel. Não há formação analítica. Disponível em:  https://revistalacuna.com/2023/12/19/n-15-04/. Acesso em: 22/08/2025.

 

 

 



[1]  Lacan, 1973, p. 57 sobre a experiência do passe

[2] Lacan, 1973, p. 57 sobre a experiência do passe

[3] Lacan, 1957-8, p. 369

[4] Freud, 1976 em a psicopatologia da vida cotidiana e nas conferências introdutórias, 1916.

[5]   Lacan, 1973, Nota Italiana

[6]  Quinet, 2009, p. 114-115

8  Vives, 2019

[8] Brunetto,2023, p 189

[9] Machado, 2008.

[10]  Fingermann, 2008

[11]   Lacan, 1978/1995. P. 66

 Trabalho apresentado no XXV Encontro Nacional EPFCL Brasil - Maceió-AL. e 16 a 19/Out/2025. 

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