Jornada de cartéis – FCL Salvador 13,14 de
Junho 2025.
Daniele Baggio[1]
Título:
Falar o que? Quando pisa nessa terra, alegria toma conta ou outros escritos:
uma experiência.
Quando
recebi da comissão de Cartéis; de Vera Edington, Manoella Jatobá, Thaine
Araújo, o convite para estar aqui com vocês nesta Jornada de Cartéis, Vera
disse: temos tomado a afirmação de que a cada vez que um cartel se constitui,
renova, em ato, a proposição de Lacan para sua Escola. Fui logo ler o belíssimo
programa do FFCL SSA de atividades para 2025 e que instantaneamente pensei,
parafraseando Lacan: O que posso saber?
e falar, sobre isso? ou ainda, com Ivete Sangalo quando canta: “Falar o
que? Quando pisa nessa terra, alegria toma conta”. O que posso eu, falar a um
fórum com tantos anos de trabalho, consolidado, com colegas tão experientes.
Com tantas atividades...?
Converso
com algumas colegas do Campo Lacaniano. Penso, leio e releio pela milésima vez
a proposição de Lacan. ‘
E
alguém me diz: fale da experiência. Então, me acalmo e me ponho e escrever, um
outro escrito, de um outro jeito, para este espaço letra C. Volto a um trecho
do meu prelúdio, lido, ontem com vocês e que não é novidade que este tema me
causa. Às voltas com o seminário 5 de
Lacan, 1957-8, as formações do inconsciente e estudando sobre este tema da
formação do analista, a enigmática citação de 1973, “Eu nunca falei de formação
analítica, falei de formações do inconsciente. Não há formação do analista.
(Lacan, Jacques. Sobre a experiência do passe. 3/11/ 1973).
O
que quer dizer isto? Que da análise tira-se uma experiência, já o sabemos. Que
toda análise é didática?[i]
ou seria melhor falar em psicanálise pura?[2]
Bem,
no ato de fundação, Lacan diz: “Os que vierem para esta Escola se comprometerão
a cumprir uma tarefa sujeita a um controle interno e externo. É-lhes
assegurado, em troca, que nada será poupado para que tudo o que eles fizerem de
válido tenha a repercussão que merecer, e que no lugar que convier. Para a
execução do trabalho, adotaremos o princípio de uma elaboração apoiada num
pequeno grupo.. o cartel (Lacan,
Jacques 1964-2003- p. 235).
Uma
ressalva, é que neste momento estamos estudando em um cartel sobre os Outros
Escritos. Essa empreitada atual se deu pela possibilidade que estes textos
oferecem de se ter um panorama do ensino de Lacan.
Estes
dispositivos, o cartel e o passe é a aposta de Lacan e continua sendo a nossa.
Assim,
gostaria, então trazer uma experiência de trabalho no fórum AL enquanto estive
em função de comissão de cartéis. Antes, mesmo de sermos oficializados enquanto
fórum AL. E tomando
como ponto de partida “a entrada na formação psicanalítica por essa via: o
cartel que faz trabalhar aquilo que causa um a um em sua escolha pela
Psicanálise. Fazer parte de um Cartel depende de um desejo decidido por essa
escolha”.[3]
Quanto nos formalizamos oficialmente em 2024
já tínhamos um trabalho que vinha sendo consolidando há 12 anos, com estudos,
atividades, seminários, cafés escola, etc. Foi então, que nos deparamos com a
seguinte questão, como fazer cartel num fórum em formação? Se não podíamos ter
coordenador de cartel e nem um registro de Cartel? Nos viramos! Fomos
procurando pares com nossos fóruns parceiros e nossos colegas de Escola que
generosamente nos orientavam e nos auxiliaram na formação de carteis
Interfóruns e registrados no fórum do mais-um. Tantos detalhes e questões que
só fomos sabendo: fazendo. Em nossa
oficialização em Paris, em 2024, contávamos com 09 cartéis em andamento. Interfóruns.
Mais, do que em muitos fóruns oficializados. Não, não é sobre quantidade. Mas,
quero destacar aqui, os princípios da carta da IF que regem nossa escola: “Os
Fóruns funcionam, portanto, de acordo com o princípio da iniciativa que só o
princípio de solidariedade eventualmente limita. O princípio de iniciativa
compreende-se facilmente: ele zela para que o funcionamento burocrático não
sufoque as ideias novas e nem se constitua como obstáculo aos empreendimentos
inesperados desde que compatíveis com as finalidades dos Fóruns. O princípio de
solidariedade lembra, sobretudo, que em um conjunto ligado por um projeto
comum, os atos de um - quer se trate de um membro ou de todo um Fórum -
comprometem o conjunto dos outros por suas consequências. Ele convida, então,
ao entendimento em todos os níveis e à responsabilidade de cada um”. (Carta da
IF, 2022, p. 04). Sem nossos colegas e os fóruns parceiros, não teríamos conseguido.
Nesta ocasião, trabalhávamos em um Cartel: fóruns em formação.
Este
ano, teremos nossa primeira Jornada de Cartéis: Cartel faz litoral, em Agosto,
deste ano. E que já aproveito para convidar a todos vocês. Foi e é muito
trabalho, fazer fórum e escola. Mas, como não se haver com o ato? Se Lacan
mesmo, nos diz que há consequências tanto nas análises quanto para a comunidade
analítica.
Retomo
a enunciação: cada vez que um cartel se constitui, renova, em ato, a proposição
de Lacan para sua Escola. Vale também, para quanto se constitui um novo fórum...?
Cada
experiência é única. Hoje enfrentamos tantos outros desafios e questões. Cito,
Lacan: “Aquele que me interroga também sabe me ler.” J. L. e seguimos. Hoje estamos com 8 cartéis
em andamento, já temos cartéis registrados no próprio fórum AL, conquistas. E
logo, os produtos e ou as crises disto, serão expostos na jornada de cartéis.
Cito Lacan: "Saiam de suas poltronas e produzam um escrito sobre o que
formulam em suas análises e suas clínicas, e o tragam a céu aberto para que um
interlocutor possa levar a empreitada adiante. Se ainda não há uma conclusão,
exponham ao menos suas crises de trabalho com certeza isso terá um efeito sobre
o seu ato.” (Lacan, 1980).
Esta comissão de cartéis, também me pediu para
falar um pouco sobre o princípio. Como começou este trabalho de fórum em
Alagoas. Contagiada pelo texto de oficialização na assembleia internacional em
Paris, Vera disse: algo alí me foi transmitido. Bem, a gente nunca sabe se a
uma transmissão acontece, a priori, só a posteriori, quando alguém diz de seus
efeitos, isso serve para clínica e também para estes espaços. O fórum Alagoas
já tem alguns anos de trabalho, uns 13 pelo menos, quando cheguei em Maceió, já
era membro de EPFCL, fazia parte do FCL MS há um tempo. Incomodadíssima com o
que escutava na faculdade onde lecionava na época, de uma psicanálise
sistematizada, nada lacaniana. Fico inconformada e começo chamando alguns
colegas para estudar, fizemos estudos, pós graduações, etc. Sempre convidando
nossos colegas de EPFCL para estar conosco e “levar a empreitada adiante”, Mas,
isso ainda não era fazer fórum e escola, era um iniciativa.
Para
que conseguíssemos chegar a oficialização, muito trabalho aconteceu. E o que
contei p vcs no começo deste texto quando falei dos trabalhos de cartéis. É
sempre por esta porta de entrada que se faz escola. Então, para os que estão
chegando: Faça cartel, para os que estão a muito tempo neste percurso: faça
cartel. Como nos diz, Lacan na proposição: um sujeito não supõe nada, ele é
suposto. Suposto, ensinamos nós, pelo significante que o representa para outro
significante. Escrevamos como convém o suposto desse sujeito colocando o saber
em seu lugar de adjacência da suposição. (Lacan, P. 253). Assim, também, vcs
bem colocaram no card desta jornada: “Escola é um lugar que cada analista faz,
ao expor “as razões de sua clínica” (...). A Escola não institui o analista, ao
contrário é ele quem, pela exposição de seu trabalho, constitui a Escola
suscetível de garantir a psicanálise. (Fingermann, 2004, p.9).
Hoje,
somos 12 membros, uma carta em tramite e temos como premissa a participação
assídua nas atividades e que: Esteja em Cartel. E temos atividade acontecendo
no Sertão, Agreste e Litoaral Alagoano. E sabemos que este é só o começo. Outros
virão. Outros pares, outros escritos, outras experiências. Estamos este ano, num momento muito especial e de muito trabalho
e também festivo por que quisemos ousadamente, sediar o XXV Nacional da
EPFCL-Brasil: “Formação do analista: urgência de nossa época”. E que contamos
com a presença de todos vocês, conexão FFCL Salvador, Maceió, nosso fórum, vizinho, para estudarmos e
brindarmos esse fazer fórum –escola que apesar da trabalheira, é motivo de
muita alegria.
Para
concluir a expressão de Lacan: ‘pensar
com os pés’, usada algumas vezes ao longo de seu ensino e por Ana Laura Prates,
em um de seus artigos[4]:
Ele dizia que esse era o modo de pensar
mais coerente com a Psicanálise, já que nossa práxis não é exatamente, ou pelo
menos não somente, uma experiência cognitiva. Há alguma especulação sobre uma
alusão à expressão de língua inglesa “walk the talk” que poderíamos traduzir
mais ou menos como “bancar o que se fala”. A alusão aos pés, de qualquer forma,
não é inocente para nós Psicanalistas, já que ela remete diretamente ao nosso
mito fundador, o Édipo (Oidipous). Em outras palavras, a sustentação do ato
ultrapassa o pensamento cognitivo. Trata-se, portanto, da ética do bem dizer e
do bem fazer em contraponto à moral das palavras ao vento. Os pés são os
membros que nos sustentam, mas também são eles que nos põem em movimento. Eles
são, a um só tempo, a sustentação e a leveza. São eles que nos indicam e nos
alegram quando se pisa nesta terra.
Referência:
Lacan,
J. D’ Ecolage, 11 mars, 1980.
Lacan,
J."Televisão", 1974- 2003, p. 508.
Lacan,
J. Outros Escritos, 1901-81/2003.
Psicanalista, membro de
Escola da EPFCL Brasil, do fórum Alagoas. Mestre em Psicanálise.
danielebaggio@yahoo.com.br
2 Lacan, 1973 sobre a
experiência do passe.
[3]
https://www.campolacaniano.com.br/dispositivos/
[4] https://jornalggn.com.br/cronica/pensar-com-os-pes-por-ana-laura-prates/
[i] A psicanálise pura, também conhecida como
psicanálise propriamente dita, refere-se à aplicação da teoria e método
psicanalíticos para a formação do analista, com foco na análise pessoal, estudo
teórico e supervisão. Em outras palavras, é a formação do psicanalista,
enquanto a psicanálise aplicada se concentra no tratamento do paciente. Psicanálise Aplicada
(Tratamento do Paciente): A psicanálise aplicada, por sua vez, foca no
tratamento do paciente, buscando o efeito terapêutico.
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