sábado, 19 de março de 2022

Sobre a queda do(s) objeto(s) e a animação ou sobre o "Garfinho" do filme Toy Store 4

 

  • Sobre a queda do(s) objeto(s)
    i
    e a animação ou
    Sobre o “Garfinho” do filme: Toy Store 4
    ii
    Daniele Baggio
    iii
    O filme “Toy Store 4” fala sobre mudança.de cidade, de escola, de amigos, de
    perspectiva, de viagem!
    Andy, o protagonista dos filmes anteriores, cresce e vai para faculdade; doa seus
    brinquedos a Bonnie, sua vizinha, uma criança, que está também às voltas com a
    mudança de cidade e escola, em decorrência do trabalho dos pais.
    Na escola nova, a sensação de deslocamento e estranheza de estar em lugar
    novo, sem amigos, causa-lhe causa angústia.
    Na aula, Bonnie se vê fora, despertencente. Olha para baixo, para o lixo e
    alcança, não sem uma mãozinha do amigo Wood (o cowboy), um garfo descartável -
    “Forky”, a este objeto, elege um lugar. O “faz” amigo e o anima! Quer dizer, o tenta
    fazê-lo. Coloca nele braços, pernas, rosto, nome, dá a ele um lugar: o de amigo e
    protagonista. Uma linda adoção! Pela psicanálise, sabemos que a - “dotar” um sujeito, é
    dotá-lo de algo, o amor, o lugar, a nomeação.
    Porém, o que mais chama atenção é que “Forky” o Garfinho, não consegue,
    ocupar este lugar, que os tantos outros brinquedos queriam. “Wood” (o cowboy),
    também em crises existenciais, não sabe como lidar com o não protagonismo. Conversa
    com Garfinho, ampara-o, coloca-o no colo e caminha na intenção de, lado a lado, poder
    explicar de que ele tem “sorte”, foi eleito a ser o brinquedo preferido, o amigo da vez.
    Tantos outros brinquedos passam pela existência de não ter sua função exercida. No
    filme, fica claro que o sonho de todo brinquedo é fazer uma criança sorrir, por um
    tempo pelo menos.
    O filme critica sutilmente o capitalismo e os brinquedos descartáveis. Mas, neste
    trabalho não há como se deter a esta questão, porque daria outro estudo. E, neste,
    gostaria de falar do sem- lugar, objeto-lixo, descartável, tão bem representado pelo
    Garfinho.
    A sabedoria do texto/ roteiro do filme é de impressionar.
    Garfinho, sabendo que é “objeto”, insiste em “cair” (psicanalistas entenderão). E a
    função do objeto não é justamente esta?
  • scartável e lixo como se sente, não quer o lugar que lhe deram. Quer voltar para
    o lixo. Ali consegue dormir, ali consegue exercer sua subjetividade. Até que, por
    contingência da vida fica preso em um armário, com uma outra boneca que nunca teve
    sua criança. E, pelo olhar de desejo daquela boneca (Gabi-Gabi), que passa a vida
    achando que não foi “eleita” por que não tinha uma caixa de voz adequada, passa o
    filme, ou melhor, a vida, tramando roubá-la de Wood até que, numa negociação à la
    “Mercador de Veneza”
    iv
    pela libra de carne ou, melhor dizendo, para salvar o Garfinho
    do aprisionamento, Wood cede a caixa de voz. Rasga-se, arranca-a e costura-se de novo.
    Nessa versão costurada, encontra um Amor, antigo? Beth, a pastora de ovelhas, que se
    redescobriu após a saída do quarto para um parque de diversões, oferece a mão a Wood,
    e entendem que seus sentidos de vida, ou melhor dizendo, o que os anima é: alegrar as
    crianças, agora num parque de diversões.
    Garfinho nos dá uma lição, quando olha (Gabi Gabi) que, também com a ajuda
    de Wood, consegue cair e, na queda, o encontro com uma criança perdida no parque;
    “perdidas” se dão as mãos e seguem num abraço.
    Após assistir todas estas cenas, Garfinho finalmente se anima em seguir viagem com
    Bonnie e outros brinquedos.
    Quantas reflexões esse filme traz, sobretudo a que mais marcou foi: todo desejo
    é desejo do Outro.
    v
    Um “amigo estou aqui”, faz toda diferença! E a Re-existência, de
    um sujeito só ocorre a posteriori, depois de tantas “quedas” de objetos. O sentido surge
    no “só depois”, no inédito e na singularidade de cada ser. Mas ainda bem, que nas
    quedas de objetos e/ou ilusões existem também “animações”.
    vi
    Referências
    LACAN, J. 1962-63/2005. O Seminário livro 10 A Angústia. Rio de Janeiro: Jorge
    Zahar Editor.
    ROUDINESCO E. e PLON, Michael. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge
    Zahar,1998.

domingo, 20 de outubro de 2019

A PELE/o ao Outro?



Daniele Baggio[1]

           
O questionamento que propicia o aprofundamento deste estudo, é acerca da incidência do sintoma no corpo como um enigma tão presente na clínica psicanalítica. Traçar uma compreensão sobre a inscrição do significante no corpo passando pela pulsão enquanto efeito de linguagem e a formação dos sintomas.
Izcovich, 2009, p. 107 descreve que o desejo humano se constituiu a partir do desejo materno, que marca a necessidade do bebê ao introduzir significantes. Por outro lado o bebê se apropria dos significantes do Outro (necessidade que se converte em demanda). Marca que se inscreve no corpo, dos cuidados do Outro.
Essa inscrição no corpo aparece definida como zonas erógenas. O corpo é libidinizado pelo Outro de modo uniforme, porém certas zonas são prevalecentes, diferem de um sujeito a outro.
Há uma fixação nas zonas erógenas ao ponto de constituir uma condição na satisfação do corpo que são as bases determinantes na fixação de um sintoma. (p.55).
Vejamos Freud p. 477 (1916/1917) Conferências Introdutórias a Psicanálise:

...a libido é como que barrada e precisa fugir para algum lugar onde possa dar vazão a energia investida, conforme a exigência do princípio do prazer. Tem de subtrair-se do Eu. Tal escapatória lhe é permitida pelas fixações no caminho de seu desenvolvimento que agora ela segue regressivamente, fluxo inverso investindo essas posições reprimidas. ...enquanto a satisfação lhe acenava era dócil mais sob a dupla pressão das frustrações exterior e interior ela se torna rebelde e se lembra de tempos passados e melhores.
A fixação de um sintoma é o que constituiu o traço perverso polimorfo de todo o sujeito, a exigência de satisfazer o que a zona erógena reclama. O que determina de modo específico a satisfação e a inscrição do significante no corpo. O que faz Lacan dizer (citado por Izcovich 2009, p. 55) que o aparelho de gozo[2] é sempre feliz.
O ponto que faz um sujeito recorrer a analise não é por falta de satisfação mas porque a satisfação que este sujeito busca não é esta, é outra.
Os sintomas e referimo-nos aqui, naturalmente, aos sintomas psíquicos, são atos prejudiciais à vida como um todo, ou pelo menos inúteis, dos quais frequentemente a pessoa se queixa como algo indesejado e que traz sofrimento ou desprazer. O principal dano que causam é o custo psíquico que envolvem além daquele necessário para combate-lo...esses dois custos podem resultar num extraordinário empobrecimento de energia psíquica disponível e assim, numa paralização do enfermo no tocante as tarefas importantes de sua vida”.  (FREUD, 1916-17 p. 476).
            De forma resumida para Freud e Lacan o estado da pulsão é sempre parcial. Lacan citado por Izcovich, 2009, p.55, define a pulsão a partir da relação de um sujeito marcado pelo significante em conexão com a demanda do Outro. O sujeito passa pelo “aperto” dos significantes do Outro para “ter” a satisfação. Existe uma zona do corpo ligada a demanda do Outro (borda do corpo). A montagem da pulsão é um dispositivo de linguagem que o sujeito fabrica inconscientemente para ter acesso a pulsão, simbólico e real estão remontados. “Débora” tem uma espécie de coceira na pele pelo corpo todo formando-se manchas avermelhadas, o corpo coçante é automático, basta falar sobre o “assunto” e o sintoma reclama as exigências do Outro, um a-pelo na pele de um corpo que faz suplência.  Nas palavras de Débora: Tem que A-PELar, né?
            Lacan (1976) citado por IZCOVICH, 2009 ao falar sobre a separação com Outro propiciada pela análise diz que a marca inscrita no corpo é a assinatura que diz: este sou eu, e desta forma podemos então pensar freudianamente que alguns sintomas são bastante exitosos no que tange a uma linguagem cifrada que demanda tradução, interpretação, compreensão de ditos inauditos que se enigmatizam em função de uma demanda tão cara e essencial ao sujeito.
            Com Freud aprendemos que a causação da neurose se dá pela predisposição mediante a fixação da libido + vivências traumáticas acidentais (FREUD, 1916-17, p. 480). 
              Assim como Freud, Lacan também se ocupa do corpo, por que o corpo em psicanálise é uma pergunta dirigida ao Outro.
Se a histeria exemplifica o sintoma no corpo, Lacan a chama com um neologismo “Symptraumatise” em francês, este neologismo põe em manifesto a conexão estreita entre sintoma e trauma, a partir do qual se pode dizer que a constituição do sintoma fundamental do sujeito, ligado a neurose infantil, tem como ponto de inserção um trauma. E para Freud o trauma é sempre sexual. Mas não se trata aqui do sexual, corpo a corpo, mas que sintoma e trauma se enodam na medida em que o inconsciente fabrica uma resposta as experiências enigmáticas de gozo no corpo.
Porém o ponto crucial é que a conjunção entre gozo do corpo enigma é fundadora do inconsciente, o inconsciente se constitui quando o sujeito assume o enigma do desejo do Outro, e isto está ligado a uma experiência infantil do corpo.
Os enigmas do corpo se situam entre dois polos, aqueles que estão relacionados com o silêncio do corpo e aqueles que se encontram ligados a uma exaltação do gozo pelo Outro. Todavia as manifestações do corpo adquire um estatuto de enigma e quando se formula um enigma adquire um caráter de sintoma, que pode ser transitório ou estável.
A psicanálise não se limita a decifrar o inconsciente introduzido ao sujeito em outra dignidade em quanto a seu corpo, nem tampouco pretende tratar as formas atuais de violência e o modo como os corpos são tratados com um desfecho, a experiência analítica nos mostra que mudando a relação do sujeito, concomitantemente se muda também a relação do sujeito com o gozo do Outro.



REFERÊNCIAS:

FREUD, S.     OBRAS COMPLETAS, VOL. 13. CONFERÊNCIAS INTRODUTÓRIAS Á PSICANÁLISE. SÃO PAULO: CIA DAS LETRAS, 2014, P. 475-500.
IZCOVICH, L. El cuerpo y SUS enigmas. Medelin: UPB, 2009.107 p.
LACAN, Jacques.  Seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.




[1] Psicanalista, ME –EPFCL/BRASIL, FCL-AL (em formação) Ms. em Psicanálise. danielebaggio@yahoo.com.br
Trabalho apresentado no XX Encontro Nacional da EPFCL-BRASIL “A política do Corpo” em Aracajú Out/2019.
[2] O aparelho psíquico de Freud equivale a aparelho de gozo de Lacan.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Do desejo pela psicanálise ao desejo do analista

Do desejo pela psicanálise ao desejo do analista

Prelúdio 1


Em Abril de 2019 teremos no Brasil, mas especificamente em Maceio-AL a presença do ilustre psicanalista francês Luís Izcovich AME - IF/EPFCL. Que marcará um traço importante em nosso percurso pela psicanálise através do Ato Analítico. O tema em questão será “distinguir” o desejo pela Psicanálise ao desejo do analista, ponto pelo qual todo analista “deve” atravessar. Conforme nosso convidado em uma conferência
(2013) o desejo em Psicanálise tem como origem a falta ser, isto é, surge do desejo materno, desejo de “falo”, mas não se satura com a identificação do filho(a) ao falo. Já que, a humanização do desejo é enodar o desejo e a lei. Isso demonstra perfeitamente a finalidade de uma análise. A ideia de Lacan, assim como a de Freud, é que, durante um tempo, a análise possa alcançar o maior ponto de simbolização possível, de elaborar, simbolizar, isto é, quanto mais se simboliza, mais se perde o gozo. Se o (NP) humaniza o desejo, é o que permite responder a pergunta sobre o desejo do outro e, nesse sentido, o NP dá um nó ao que falta ao simbólico. A metáfora paterna tem uma função de nominação que enoda o imaginário e o simbólico. E Lacan acreditou por um tempo que isso era suficiente. E o que ele chegou a trabalhar no seminário da angústia é que “só o amor permite condescender o gozo ao desejo”. Isso implica que o amor é o que permite passar de um gozo que não tem em conta o outro a um desejo que por definição tem em conta o outro. É uma operação do amor, é uma consequência da operação paterna.
Todavia mais adiante escreve sobre o “desejo do analista” que se enlaça com a pulsão, na medida em Lacan afirma que vai articular a pregnância da função do desejo do analista a partir da pulsão, de sua desmontagem e de seu circuito; o que significa que esta pregnância provém da pulsão. “Trata-se de conceber”, diz Lacan, “onde está o ponto de disjunção e conjunção, de união e de fronteira, que só pode ser ocupado pelo desejo do analista”. Em outras palavras, trata-se de uma solidariedade estrutural entre a pulsão e o desejo do analista.
Lacan, citado por Izcovichi (2013), ainda acrescenta uma dimensão suplementaria, com a ideia de que existe um gozo que não se pode simbolizar, e aí surge uma pergunta à psicanálise: “O que não se pode simbolizar, pode se esperar que se reduza com o tempo?”. Aqui entra o valor que Lacan coloca sobre o desejo do analista. Lacan, quando introduz a definição de desejo do analista, diz que o desejo do analista não é um desejo puro, é um desejo de se obter a diferença absoluta, e não se trata de qualquer frase, se trata da frase que se conclui o seminário, e por isso há um valor importante. Lacan percebe esta frase de outra afirmação, que o desejo (em geral) de um sujeito é, em essência, instável. Não funciona com um fluxo contínuo, há uma descontinuidade, e isso faz com que o neurótico desconfie desse desejo, do desejo de estar seguro de algo que o orienta, mas que amanhã pode o abandonar.
Podemos dizer, então, que o desejo busca a satisfação fálica e o sujeito percebe que o desejo não o protege de suas errâncias. O termo errâncias, aqui, diz respeito às decisões falhas, e isso se constata em momentos cruciais da vida, em que o sujeito pode renunciar ao seu desejo, ou pode interpretá-lo mal. Tomemos o exemplo da angústia, afeto do real, como dizia Lacan, que comporta uma certeza; por suposto que é uma certeza, o problema é como um sujeito interpreta sua angústia, como interpreta sua certeza. A angústia é esse indicador de que estou na direção, ou devo mudar de direção? Esta é uma pergunta fundamental, porque a análise é um dispositivo que provoca angústia. Mas por que uma análise angustia? Em primeiro lugar, por que se encontra com o desejo do analista, e esse desejo vai ao oposto do recalque (as cenas que o sujeito tende a excluir de seu pensamento), seguindo a teoria freudiana, segundo a qual a angústia gera o recalque, que funciona como uma proteção, um escudo. Se o desejo do analista é o que tenta extrair este escudo, o que vai produzir é a angústia. Mas há outra razão pela qual o desejo do analista angustia, o principio da angústia é a impossibilidade de nomear que desejo do outro. O analista encarna/presentifica na análise esta dimensão. A teoria de Lacan sobre a angustia é que a angústia se manifesta quando o objeto a faz sua aparição. Se o analista ocupa lugar semblante do objeto a, isto quer dizer que o analista sabe que o único modo de ascender o verdadeiro desejo ao sujeito é de atravessar a angústia; há sujeitos que se angustiam mais, outros menos. O analista deve saber qual é a angústia que o sujeito deve tolerar e, nesse sentido, Lacan fala de uma questão ligada ao manejo do tempo. Manejar a angústia do analisante não é manejar o analisante. É manejar a relação que o analisante tem com o tempo. E aqui há uma observação geral que se pode fazer. O neurótico está sempre fora do tempo, o psicótico também, mas de outro modo. A análise, introduzindo a dimensão da angústia como efeito de desejo do analista, introduz o sujeito ao tempo, já que Freud trabalha o desejo como indestrutível, isso é, a marca do desejo do outro. O desejo instável pode ter flutuações, mas não desaparece jamais. O desejo do analista como um desejo puro é um desejo que não aceita nenhum limite, nenhum compromisso, o único fim é o encontro com o absoluto, não por nada. O desejo do analista não é desejo do impossível, trata-se de um ponto importante, já que implica que o analista se agarra a uma ideia em cada momento da cura sobre o que é possível e o que é impossível. Há que se ter em conta que o impossível é o nome do real, digo isto para deixar claro um ponto: o real, não é efeito do fim da análise, há um real no início da cura, o Real esta presente do lado da cura; portanto, o desejo do impossível é reconhecer o impossível, integrá-lo como limite ao desejo.
Izcovichi (2013) contribui ainda com a dimensão de que o desejo do analista é um desejo de obter a diferença absoluta, que é o nome do gozo do sujeito, o que tem como substância de um sujeito uma vez caída as identificações. Observe que numa análise, à medida que as identificações do sujeito caem, o que são os outros não cessa de agradar-se, já que as identificações vão ao lado se fazer um, um igual aos outros.
A desidentificação vai ao lado de fazer aparecer o traço distintivo, é por isso que a desidentificação produz necessariamente uma separação com o outro, produz uma diferença, até fazer emergir o que Lacan chamou mais tarde de poema do sujeito. Lacan disse, em 1976, conforme Izcovich, “eu não sou poeta, sou poema”. O poema dá a ideia de que não se trata em um sujeito só da questão do desejo do outro, senão da marca escrita no corpo ao qual uma análise vai aportar a assinatura que diga “este sou eu”. O desejo do analista, portanto, como desejo de obter a diferença absoluta, demonstra que a análise é uma experiência de leitura, mas não unicamente; a prática de leitura é a base da interpretação analítica. Para que um sujeito possa ascender ao seu nome próprio, inscrito no corpo, faz-se falta uma inscrição, esse poema que se inscreveu em sujeito faz falta um sujeito em que se agregue sua assinatura. Pode-se, pois, assinar o poema, uma vez que se ascendeu uma diferença absoluta. O desejo do analista não se sustenta pelo fantasma e não aponta para um objeto particular. É a interpretação do analista que permite sujeitar o inarticulável do desejo. Há aqui outra diferença entre qualquer desejo e o desejo do analista. O desejo se interpreta, o único desejo que não se pode interpretar é o desejo do analista, nem sequer para aqueles que estão em uma Escola de Psicanálise, ou Cartel de passe, por que o desejo do analista só se pode perceber pelos efeitos analíticos em seus analisantes.
Segundo, Quinet (2008, p. 113), Lacan, no seminário 11, nos indica que “se a transferência é o que da pulsão desvia a demanda, o desejo do analista é aquilo que traz ali de volta”. O desejo do analista não é um desejo triste, conformado com a falta, apesar de assumir a falta como consentimento à castração. Trata-se, antes, de um desejo que empolga, anima, vertendo afeto para o âmbito do saber que ele enquadra, conferindo-lhe a conotação de um saber alegre, gaio saber. Trata-se de um saber que é desejante.
Desta forma, entusiasmados com este Encontro, convidamos a tod(x)s os sujeitos desejantes a estarem conosco nessa transmissão primorosa tão a formação contínua do analista.


[1] NP (nome do pai ou metáfora paterna) é o termo lacaniano sob uma perspectiva que o pai exerce uma função simbólica que permite a criança adquirir uma identidade.  Segundo Roudinesco (1998, p. 541), nessa perspectiva e no âmbito da teoria lacaniana do significante, a transição edipiana da natureza para a cultura efetua-se da seguinte maneira: sendo a encarnação do significante, por chamar o filho por seu nome, o pai intervém junto a este como privador da mãe, dando origem ao ideal do eu* na criança. No caso da psicose, essa estruturação não se dá. Sendo então foracluído o significante do Nome-do-Pai, ele retorna no real* sob a forma de um delírio contra Deus, encarnação de todas as imagens malditas da paternidade.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Real e o Corpo

O REAL E O CORPO
Daniele Baggio[1]
 



O Real e o Corpo: A Clínica Psicanalítica diante dos enigmas do corpo é o título deste trabalho. Inspirado, sobretudo no livro de Luis Izcovich: El cuerpo e sus enigmas, 2010. Sob a perspectiva da metapsicologia do corpo, tendo como objetivo investigar a incidência do inconsciente “Real”[2] sobre o corpo, tomando como exemplo alguns fenômenos psicossomáticos. A psicanálise, portanto se ocupa não de outra coisa senão dos enigmas do corpo. O objetivo desde estudo é compreender a incidência da linguagem sobre o corpo, como um enigma, como um texto para ler, compreender e interpretar como um conjunto de interrogantes.

1.     INTRODUÇÃO

O artigo em questão surge do propósito de dar continuidade - enquanto desdobramento e avanço - da pesquisa De Novo:  o conceito de Com/ pulsão a repetição e suas implicações na clínica psicanalítica  (Baggio, 2014). As conclusões de tal estudo - construído como Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise –U.K (Universidade Kennedy) apresentam-se para a ideia aqui proposta como um conjunto de premissas que prepararam e ensejam a discussão em torno da possibilidade de uma ação clínica, dentro de uma perspectiva psicanalítica de Freud a Lacan. Em suma, a perspectiva de um trabalho frente a esse contexto complexo do corpo como um enigma configura-se como nosso objeto de investigação.
Na ocasião, investigamos o conceito de pulsão na Obra de Freud e Lacan, com o intuito de esclarecer questionamentos surgidos a partir da clínica sobre a compulsão a repetição, visando investigar sobre a intervenção do analista diante do circuito pulsional, se o sujeito com o processo analítico poderia obter outra satisfação que não fosse a repetição ligada ou fixada ao trauma.   
O desenvolvimento da pesquisa levou-nos a bordejar algumas questões instigantes a serem pesquisadas acerca da analisibilidade do sujeito tomado pela singular condição de corpo imposta pelo inconsciente. Em termos gerais, objetivamos compreender a expressão do inconsciente estruturado como linguagem e sua relação como inscrição no corpo. Uma vez que o ser sexuado é o gozo de um corpo e já que Lacan articulou que o objeto a como complemento do sujeito e esse complemento se localiza no Outro, no corpo do outro, o sujeito não tem outro remédio que passar pelo circuito pulsional.
Isto designa o sujeito a partir da cadeia significante e de sua estrutura, o modo em que a cadeia inconsciente exerce seus efeitos. O que significa dizer que o modo em que o ser-humano quando vem ao mundo, é uma pura substância biológica será modificada pelo outro operando a passagem do organismo ao corpo pela linguagem.
Conforme o artigo: Lalangue, via régia para captura do Real de Genesini[3] Lacan ora apresenta a palavra alingua ora lalingua, para associar a lala~cão do bebë e que relaciona isto a mediação materna cito:
“Desde a origem há uma relação com lalangue, que merece ser chamada, com toda razão, de matema, porque é pela mãe que a criança se assim posso dizer a recebe. Ela não aprende lalangue.”[4]
Dizer isto significa que lalangue não pode ser equiparada a algum tipo de significação, uma vez que lalangue só se sustenta no mal entendido, em outras palavras: mesmo que a mãe tente traduzir a lalação do bebë de acordo com sua interpretação sempre haverá um lapso, uma falta, entre o que se quer dizer e o que se ouve por exemplo.
Uma vez que a clínica psicanalítica nos convoca a tratar destes enigmas, como seria a intervenção de um psicanalista diante destas questões acerca do REAL.

2.      JUSTIFICATIVA

Assim como Freud, Lacan também se ocupa do corpo, por que o corpo em psicanálise é uma pergunta dirigida ao Outro.
Se a histeria exemplifica o sintoma no corpo, Lacan a chama com um neologismo “Symptraumatise” em francês, este neologismo põe em manifesto a conexão estreita entre sintoma e trauma, a partir do qual se pode dizer que a constituição do sintoma fundamental do sujeito, ligado a neurose infantil, tem como ponto de inserção um trauma. E para Freud o trauma é sempre sexual. Mas não se trata aqui do sexual, corpo a corpo, mas que sintoma e trauma se enodam na medida em que o inconsciente fabrica uma resposta as experiências enigmáticas de gozo no corpo.
Porém o ponto crucial é que a conjunção entre gozo do corpo enigma é fundadora do inconsciente, o inconsciente se constitui quando o sujeito assume o enigma do desejo do Outro, e isto está ligado a uma experiência infantil do corpo.
Conforme Izcovich, 2010, p. 15. Se referindo a Lacan, há duas condições para designar a causa traumática: o gozo inassimilável e a constituição de um enigma, e são estas as duas condições que constituem o caráter solidário do trauma e do fantasma. O enigma em relação com o gozo é a base do fantasma, já que trauma e fantasma são equivalentes. 
Os enigmas do corpo se situam entre dois polos, aqueles que estão relacionados com o silêncio do corpo e aqueles que se encontram ligados a uma exaltação do gozo pelo Outro. Todavia as manifestações do corpo adquire um estatuto de enigma e quando se formula um enigma adquire um caráter de sintoma, que pode ser transitório ou estável.
A psicanálise não se limita a decifrar o inconsciente introduzido ao sujeito em outra dignidade em quanto a seu corpo, nem tampouco pretende tratar as formas atuais de violência e o modo como os corpos são tratados com um desfecho, a experiência analítica nos mostra que mudando a relação do sujeito, concomitantemente se muda também a relação do sujeito com o gozo do Outro.
Porém a justificativa para este esta pesquisa é compreender e aprofundar a evidência em que o trauma se constitui em sintoma pelo efeito do significante que determina a marca do gozo sobre o corpo o que equivale dizer que o significante é meio de Gozo.
Mas não apenas na evidência do trauma que marca o corpo enquanto gozo, todavia elaborar a questões que fazem borda ao inconsciente em si. Tomando como base a citação de Freud enquanto que todo o reprimido é inconsciente porém nem todo inconsciente é reprimido[5], ou seja, haveria dito de outro modo um Inconsciente Real, ou ainda um terceiro inconsciente no sentido de que nem tudo é possível de inscrição, de representação, há sempre um osso, um rochedo, um umbigo intransponível e de inacessível significação, pelas próprias falhas da linguagem. Haveria sempre algo que “não cessa de não se inscrever”[6].  
3.      REVISÃO DA LITERATURA
O corpo e a pulsão
A pulsão não é instinto, instinto corresponde a um programa animal, que marca o corpo geneticamente e determina uma conduta, o conceito de pulsão se distingue fundamentalmente disto já que não é a marca da espécie mas a marca da linguagem. Observando que em sua época se considerou a psicanálise como uma prática escandalosa, não tanto pela descoberta do inconsciente mas pelo postulado na sexualidade infantil. Referir-se a sexualidade infantil, implica em introduzir o corpo, isto exige que delimitemos bem o que se entende por pulsão. Lacan retoma o tema da pulsão a partir do seminário “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise” em um momento crucial em que começa a ocupar se do conceito de pulsão em psicanálise e que introduz uma perspectiva se dando conta dos termos “montagem pulsional”.
A pulsão para Lacan, é um efeito da demanda do Outro, a experiência é clara neste sentido, a passagem da infância, entre bebê e suas necessidades e a demanda que é dirigida ao Outro, está modelada pelo modo em que o Outro o fala. A demanda do Outro encarnada pela mãe, modela as demandas do bebê, porque parte dirige a ela e logo em seguida aos outros. O plano de necessidade do ser - humano é a necessidade que é da ordem do fisiológico, condição da vida de um organismo. A demanda é a marca de um desejo. Há então entre necessidade e demanda uma hiância: lugar que se infiltra o desejo. O desejo se constitui um pouco antes da demanda. E isso implica duas dimensões: por um lado, que o desejo da criança se constitui a partir do desejo materno que marca a necessidade da criança que introduz significantes. Pelo outro, que a criança se apropria os significantes do Outro, o que tem conseqüências sobre a necessidade que se converte em demanda. A demanda é a marca de um desejo, marca que se inscreve no corpo, a marca que esse Outro marco o corpo da criança com seus cuidados. Por isso, não existe progressão natural, não se passa da pulsão oral, a uma pulsão anal e logo a ordem fálica por simples maturação. Não se trata de uma programação cronológica. esta inscrição no corpo aparece em definida em Freud como zonas erógenas.
Este termo em Freud de zonas erógenas vão neste sentido. O corpo está libidinizado, erotizado de um modo uniforme. Pelo contrário, certas zonas erógenas são prevalentes, diferem de um sujeito a outro e para um mesmo sujeito ditas zonas não são intercambiáveis, muito pelo contrário, há uma fixação em zonas erógenas ao ponto de constituir uma satisfação do corpo e são bases determinantes da fixação de um sintoma.
Isto é o que constitui o traço perverso de todo sujeito. Há uma dimensão de perversão generalizada que está determinada por esta estrutura de inscrição de significante no corpo. A exigência é satisfazer o que a zona erógena reclama. A fixação da zona erógena comemora a inscrição do significante no corpo que determina um modo específico de satisfação.
Este é o esquema que Freud traçou para pulsão e que tem conseqüências decisivas para a orientação da psicanálise. E como se trata das pulsões e não da pulsão definitiva, Lacan escreve a pulsão a partir da relação de um sujeito marcado pelo significante em conexão com a demanda do Outro para alcançar a satisfação. Mas precisamente, se existe uma zona do corpo prevalente ligada a essa demanda do Outro, dita zona do corpo tem afinidade com uma borda, borda do corpo.

O corpo: R,S,I

Conforme Izcovich, 2010, a primeira concepçõ de Lacan acerca do corpo corresponde ao “Estádio do Espelho” uma vez que se ocupa de artiular sobre prematuridade da concepção do Eu que vem através do Outro, através da imagem, em outras palavras, diante do espelho o sujeito se depara com o Eu a medida que reconhece o Outro, ou ainda, a identidade humana está dada ao menos no início da vida pelos limites da imagem (identidade imagnária). Porém depois de 1953, Lacan escreve sobre este corpo sutil, que não se trata de um corpo puramente imaginário. Mas um corpo que passa  do imaginário ao simbólico para constituir um conceito de sujeito, ou seja, a ideia de Lacan é que o sujeito é um efeito do significante que extrai do Outro. O simbólico por sua vez exerce seus efeitos sobre o imaginário. Porém é necessário lembrar que a linguagem não sustenta uma garantia absoluta acerca da tradução ou da significação que se propõe, há sempre uma falta. Isto é, embora Lacan já tenha nos provocado com Lalangue já sabemos que por mais aproximação que exista entre a expressão da criança e a mãe, há sempre um falha.
Um outro ponto importante é pensar que para Lacan, a função paterna estabelece uma função de castração, barreira a este Outro e que isto é fundamental na estruturação psíquica, uma vez que a função paterna introduz a dimensão de um direito ao gozo e paradoxalmente o significante introduz uma causa de gozo. A castração em Lacan não é obstáculo, é impossibilidade de gozo que abre uma via do desejo possível. Acreditar na ideia que o saber inconsciente afeta o corpo, é sustentar a ideia de que o sujeito é efeito do significante mas o inconsciente promove um efeito no corpo. Lacan usa uma fórmula em “posição do inconsciente”: o trauma é a inscrição de um significante que comemora o instante do gozo. Nesse sentido, há uma dimensão em que a inscrição do significante produz um efeito de memória que condiciona a repetição. Existe no significante do trauma um saber sobre o gozo a repetir. Há então um laço íntimo entre o sintoma, como modalidade de gozo e o trauma como um gozo irruptivo. O sintoma inclui o trauma.

FPS em Psicanálise

Apesar de Freud, não ter falado diretamente do FPS “fenômeno psicossomático” é em sua revisão literária que encontramos vários aportes para desenvolver tais questões. Arranz, 2009 nos orienta neste percurso já que teceu uma publicação ddicada a fazer esta didática revisão em Freud. Segundo a autora o FPS pode ser pensado em Freud fazendo uma relação direta a teoria do Eu, da Pulsão e do Narcisismo. Uma vez que localizaria o FPS ao auto-erotismo como uma lesão de destruição do órgão sobre a necessidade. Dito de outro modo, poderíamos pensar que o FPS estaria remetendo a uma época do infantil que o sujeito encontra seu prazer na relação com o próprio corpo. Quando Freud escreve o texto de 1915 sobre a pulsão e seus destinos, descreve alguns destinos comuns para as pulsões do sujeito, seriam elas: o retorno sobre a própria pessoa “masoquismo”, para o Outro “Sadismo”, o Recalque e a Sublimação. Deste modo podemos compreender o FPS conforme um destino de masoquismo, em que o sujeito encontra em seu próprio corpo seu  gozo.
Mais adiante no texto de 1920 “ Mais Além do Princípio do Prazer”, a autora compreende que o FPS estaria fusionada (lesão) com a pulsão de morte e a tentativa de (inscrição) com a pulsão de vida, de modo que o FPS estaria “fora” do recalcado e sua fixação seria como um signo. Relembrando de algumas pontuações de Freud neste texto, sabemos que ele escreve o Mais Além do Princípio do Prazer para dar conta de alguns aspectos clínicos tais como a repetição em que o que ele havia escrito anteriormente não havia sido suficientes, refiro-eme a máxima de que uma psicanálise seria passar o conteúdo inconsciente para a consciência e assim obteveríamos um efeito, neste texto Freud mostra com o exemplo de alguns pacientes através da repetição que existe algo a mais, ou seja, a satisfação da pulsão de morte estaria neste Mais Além. Portanto, pensar clinicamente em alguns casos em que a pulsão de morte deixa suas marcas, nos é sempre um desafio. [7]


4.     CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que surge então como questão é que haja  u dispositivo que toque o Real ao Real. O analista podendo intervir não só apontando o recalcado mas ao ponto de modificar o modo de satisfação de um sujeito com seu inconsciente. Para que obtenha um novo modo de satisfação, uma nova identidade, que não seja mais um sintoma auto-erótico
Mais ainda uma psicanálise se ocupa de tratar o Real pelo simbólico, de modo que aquilo que não cessa de se increver, se escreva ainda que não a plenitude, mas que estes alcances possíveis retratam um efeito no sujeito, no corpo, na angústia e no modo de se relacionar com seu o Gozo.
Conforme, Mucida 2012 é a insistência do Real que permitiu a invenção do dispositivo analítico e obriga os analistas a revisitarem sua prática e os conceitos com os quais operam. E neste caso operar com a interpretação tendo em vista o Real fora de sentido, promovendo um saber fazer com o Real que parasita o gozo, com efeitos sobre a satisfação, ajudando o ser falante a se desembaraçar no mundo, ainda que não seja um mundo de representação.


5.     REFERÊNCIAS

ARRANZ,Z.L. La perspectiva freudiana Del fenômeno psicossomático. Buenos Aires: Letra viva, 2009. 174p.
BAGGIO.D. De Novo: O conceito de Com/Pulsão a Repetição e suas implicações na clínica psicanalítica. Campo Grande; Life, 2014.
GENESINI T. GÓIS E; UYENO E; UENO M. Lalangue: via régia para captura do Real. Disponível em: http://psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/LALANGUE.pdf. Acesso em: 06/04/2018.
IZCOVICH, L. El cuerpo y SUS enigmas. Medelin: UPB, 2009.107 p.
LACAN, JACQUES.  Os Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969.
MUCIDA, A. Espaço da interpretação e inconsciente Real. Revista Stylus: A Lógica da Interpretação. Nov. 2012.n.25.



[1] Psicanalista, membro da EPFCL, Ms. em Psicanálise pela U.K, Psicóloga.
[2] Inconsciente Real: tese trabalhada por Lacan para designar o que está fora de sentido.  
[3] Disponível em: psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/LALANGUE.pdf
[4] Jacques Lacan: Conference ET entetiens dans dês universutés nord-americaines. Scilicet n. 6;7, 1975, p. 42-45. Apud Genesini.
[5] FREUD. S. El yo y El ello. En Obras Completas. Buenos Aires, Amorrortu Editores, 2000, t. XVIII, pág. 25. Apud    ARRANZ, 2009.
[6] LACAN, J. Escritos, 1962.
[7] Vale lembrar que o auto-erotismo acontece posteriormente a a relação do sujeito com o Outro. Isto é, justamente porque o sujeito já experienciou algo com o Outro que pode “aprender” sobre o auto-erotismo.