quinta-feira, 25 de maio de 2017

Repensando a clínica: (atr)avessando os limites de uma formação tradicional em psicologia

REPENSANDO A CLÍNICA: (ATR)AVESSANDO OS LIMITES DE UMA FORMAÇÃO TRADICIONAL EM PSICOLOGIA

Daniele Baggio Silva de Menezes[1]

            A idéia deste trabalho surge a partir de um questionamento acerca da prática enquanto formação em psicologia. Vislumbrando através de reflexões pessoais e em equipe a "atualização" deste cenário, traçando um referencial histórico que contextualiza a visão da clínica médica "tradicional" até os dias atuais e seus desafios.
            Antes de iniciar é válido lembrar que só con(sigo) pensar nesta perspectiva fazendo uma reflexão pessoal sobre minha tão solitária[2] e singular trajetória  neste percurso.  E embebecida da fonte psicanalítica tão próxima a mim e ao que acredito é que rascunho o re-pensar este "atr(avessamento)".
            Como a teoria de Freud e Lacan me guia e me sustenta pela ótica que vejo o mundo, inicio desde então, mas também com a ajuda de Foucault no Nascimento da Clínica para todavia paradoxalmente atravessarmos o desafio atual e futuro, fazendo psicanaliticamente o caminho inverso, re-verso, avesso, ou seja, de trás para frente.
Vejamos Foucault, 1963/2011, o início da clínica médica despontou no final do século XVIII e início do século XIX com as inúmeras descobertas e instrumentalização médica advinda de observações e estudos que muito contribuíram para os diagnósticos. Porém vale lembrar que a clínica surgiu com Hipócrates e este período seria o de crescimento e auge da medicina. O início da clínica médica se faz pela observação e entrevista e esses procedimentos influenciaram o saber psi.
Em outras palavras o significado do termo clínica segundo Doron & Parot (1998), “(...) originariamente, a atividade clínica (do grego klinê – leito) é a do médico que, à cabeceira do doente, examina as manifestações da doença para fazer um diagnóstico, um prognóstico e prescrever um tratamento” (Doron e Parot,1998, pp.144-145).
Para a medicina é impossível diagnosticar sem antes saber os antecedentes da doença. Ao menos era assim antigamente. Neste ponto de an(coragem) que nos detemos, para clarear as idéias repensadas neste esboço. Ora o que ocorre na atualidade clínica psi que nos limita então, seria o espaço físico? O tradicional dito pelo social seria isto?
Conforme o dicionário da língua portuguesa o termo tradional significa "algo relativo a tradição ou conservado por ela ou ainda transmissão oral de lendas, fatos, costumes, etc, tudo o que se sabe por uma transmissão de geração em geração, passando de boca em boca." (Melhoramentos, dicionário da língua portuguesa, 2006, p. 514)
Fazendo referëncia ao artigo o surgimento da clínica (2007) o Conselho Federal de Psicologia, em uma de suas pesquisas, apresentou um dado significativo sobre a atuação do psicólogo no Brasil. Entre os psicólogos (75%) que estavam exercendo a profissão na data da pesquisa, a maioria (54,9%) se dedicava à clínica em consultório, e 12,6% atuava com Psicologia da saúde, sendo que, nesse campo, a prática, na maioria das vezes, também é clínica. Mas, anterior à discussão sobre a atuação do psicólogo, no Brasil, uma questão nos parece prioritária: o que é Psicologia clínica?
Dutra (2004) revela que alguns conceitos são pertinentes à prática clínica, como escuta clínica, sofrimento psíquico, subjetividade.
Neste viés podemos pensar que atravessar os limites do tradicional seria avançar? já sabemos que a chamada clínica amplicada por assim dizer esta cada vez acontecendo nos diversos cenários, uma vez que a compreendemos  como uma postura ética e política diante do sujeito humano. Não um local.
Todavia a  proposta deste trabalho é instigar reflexões acerca disto, mas também pensar sob uma outra perspectiva a de que estes limites talvez não sejam as barreiras do espaço físico, mas sim os impedimentos próprios, psíquicos, limitados a pensar a psicologia clínica apenas desta ou daquela maneira (tradicional, amplicada). Antiga - moderna.
Ensimesmar-se  a refletir,  falar, elaborar, escrever, transmitir de dentro para fora uma posição, uma saída, uma alternativa para atravessar estes limites é também uma possibilidade de atravessamento obtida através da clínica. Digo, do próprio processo psicoterápico, psicanalítico...
Uma vez que tantos pré-conceitos que  temos a depor, de nossa miséria humana. Se faz possível pela clínica a nossa, dos psi(s) sobretudo.  Os pré-conceitos a atravessarmos iniciam por nós mesmos,  pela própria profissão, que é diversa, E o que  diverge desde sempre causa angústia, inquietação, frustração, críticas.
Freud  em seu texto "O Estranho" nos ensina que:  “o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar” (Freud, 1919  p. 300). Isto é, reprimir, projetar o estranho que habita em nós é a principal via que devemos refletir. Pois são nestes disCURSOS que habitamos e somos chamados a transmissão. A clínica é e sempre será um desafio. Mas não um desafio externo, comum, um desafio particular. De atravessamento dos próprios limites e pré-conceitos.
Na minha pequenês singularidade proponho dizer que:  Não há outro re-pensar da clínica senão o próprio. No sentido de um apropriamento de intrínsecas questões internas que se limitam, sem mesmo que o sujeito se deflagre com isso. Os limites e impedimentos que quiçá a psicologia precisa atravessar são nada menos que os do próprio umbigo. E isso não se constrói pelo externo, pela prática articulada sem reflexão, sem a tradição da escuta do sofrimento das mazelas humanas, pela via das histórias, dos antecedentes familiares que desconhecemos em nós mesmos. Não se trata do Outro, se trata de cada um de nós, primeiro.
Fazer uma clínica diferente, diversa, aberta só é possível por ela mesma, seu objeto ético prático para adiante conseguirmos este atravessamento enquanto campo.
Parece óbvio o que estou dizendo, escrevendo, pensando, insistindo. Mas o óbvio não tem sido feito e talvez os limites estejam aparecendo cada vez mais. No externo, no social, como todo sintoma.
 Retorno a Freud em Recordar, Repetir e Elaborar (1914) quando aborda que o principal instrumento para cessar a repetição é transformá-la num motivo para recordar. Ou correremos o risco da repetição do mesmo, do "atual" que é antigo.
            Para terminar hoje este trabalho, sabido que seu desafio é ainda de muito avançar detenho -me a arte e a poesia que  desde sempre nos antecipam, escolho Manoel de Barros, meu conterrâneo, de raíz, de familiar em seu livro sobre nada (1996).

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
(Manoel de Barros, 1996).




REFERÊNCIAS:
BARROS,Manoel. Livro sobre nada. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1996.
DORON, R.; PAROT, F. (orgs.) Psicologia Clínica. Dicionário de Psicologia.Vol. I. São Paulo: Ática, 1998, pp. 144-145.
DUTRA, E. Considerações sobre as significações da Psicologia clínica na contemporaneidade. Estudos em Psicologia, v. 9, n. 2, pp. 381-387, 2004. 
FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. 2. ed. Rio de Janeiro: Artmed, 1963/2011.
FREUD, Sigmund. O caso de Schreber, artigos sobre a técnica e outros trabalhos. (1911/1913). 1ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
FREUD,Sigmund. “O Estranho” (1919) Vol.17, Rio de Janeiro: Imago, 1969, 297-324.
MELHORAMENTOS dicionário: língua portuguesa. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 2006, p. 514. 
OLIVEIRA, Jacqueline, ROMAGNOLI, Roberta e OLIVEIRA, Edwiges. O Surgimento da Clínica Psicológica: Da Prática Curativa aos Dispositivos de Promoção da Saúde. Revista Psicologia, Ciência e Profissão, 2007, p. 608-621.
ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.



[1] Mestre em Psicanálise, Psicóloga, Psicanalista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Professora e Supervisora Acadêmica -CESMAC (danielebaggio@yahoo.com.br)
[2] Lacan, 1964 utiliza esta expressão "tão sozinho quanto sempre estive" para referir-se a singularidade da experiência de um sujeito em se fazer ATO. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

A mãe da queixa é a mãe da fantasia


 

A mãe da queixa é a mãe da fantasia

 

Daniele Baggio[1]

            Este trabalho surge a partir de questionamentos da clínica acerca do tema da "Devastação" e que se fez produto de um Cartel. 

            Em 1972, Lacan apud Miranda 2011, p. 137, utiliza o termo ravage (devastação) para exemplificar a relação de uma mulher com sua mãe. Freud (1931) em sua conferência sobre a sexualidade feminina menciona essa tal relação como desastrosa, como uma catástrofe, na qual o autor descreve as reivindicações e exigências que uma filha endereça a sua mãe, culpando-a ou responsabilizando-a por todas as suas próprias faltas.

            Conforme Colette Soler, 2005, p. 88, desde as práticas antigas as funções de maternação é substituível, porém atualmente há uma vinculação maior da mãe ao filho tornando-se o parceiro exclusivo da criança, e os homens, que sucedem "companheiros da mãe" são apenas acréscimos. Mas quais seriam as conseqüências subjetivas disso? A psicanálise também faz parte desta mudança de situação na civilização.

            Desde Freud sabemos que ele já havia apontado para a ambigüidade erótica dos cuidados maternos, da qual o sujeito a espera deverá emergir como efeito da fala, esse é o passo que o autista nunca dá e para qualquer outra criança é senão o primeiro passo da separação.  Todavia muito dependerá do lugar que o inconsciente materno reserve para este objeto surgido no Real, se é que lhe é reservado algum, pois há apenas "poedeiras[2]" de objetos a abandonar, e por não ser um substituto fálico o filho não passa de um pedaço de carne.

            Soler, 2005, p. 94, relata que a solução materna para a falta fálica, na maioria dos casos, é a maneira como o filho é situado nela, e que marca o destino da criança. Vejamos:

              A lalingua tem efeitos de inconsciente, por que não é apenas o idioma de sua região, mas antes, a língua privada do par originário, a língua privada do par originário, a língua do Eros do corpo-a-corpo cujas palavras deixam marcas pelo gozo que encerram. (SOLER, 2005, p. 97)

 

            Neste sentido, é necessário fazer uma breve explanação sobre o gozo no feminino, e o que seria a devastação a partir disto.

            Para Lacan apud Maria Anita Carneiro Ribeiro há três formas de Gozo, o Gozo do sentido situado entre o Imaginário e o Simbólico que tem haver com a fala, o querer saber mais, querer saber o final da história por exemplo. O Gozo do sintoma (fálico) situado entre o Real e o Simbólico, o Gozo Outro, situado entre o Real e o Imaginário.

            A devastação por sua vez, seria o que vimos acima, o que ocorre com Gozo Outro (que escapa a norma fálica) que se presentifica na relação mãe-filha. Isto é, por estar fora da referência fálica, há uma falta de limite, que passa muitas vezes pela crueldade, ou seja o Gozo, se arma dos lados, a mãe devasta a filha, e a filha devasta a mãe.

            Lembrando que Lacan apud Rocha Miranda 2011, p. 267 no seminário 14: a lógica do fantasia formula o que ele chama de um novo princípio - "Só há gozo do corpo" ou seja, um corpo é feito para gozar dele mesmo, mas o gozo é subjetivamente excluído, isto é, o sujeito sendo o golpe que separa o corpo do gozo. O gozo é uma falha externa ao ser, no entanto isto não impediu Lacan  de falar do gozo Outro como o que está no alvo da fantasia do neurótico, pois a neurose faz consistir o Outro.

            Neste viés, o sujeito neurótico faz o Outro consistir com suas demandas e, quando isso falha e se depara com a inconsistência do Outro, cai em um Gozo Outro que o avassala, pois na medida em que não há o que dizer toda a verdade, não há como dizer o Gozo. O corpo é radicalmente Outro. Nas palavras de Rocha Miranda:

O corpo marcado e esculpido pelo significante falo é o corpo deserto de gozo cujo objeto está fora do corpo e se faz presente na fantasia. (ROCHA MIRANDA, 2011, p. 268).

             Fantasma ou fantasia, este termo, segundo Roudinesco (1998), foi usado por Freud no início para se referir fantasia/imaginação e depois como um conceito para designar a vida imaginária do sujeito e a maneira como este representa para si mesmo sua história ou a história de suas origens. Lacan retoma este conceito freudiano e sublima sua função defensiva, como um modo de defesa contra o surgimento de um episódio traumático. Lacan postula a fantasia fundamental, cuja “travessia” pelo paciente assinala a eficácia da análise, materializada num remanejamento das defesas e numa modificação de sua relação com o gozo. O matema utilizado denomina lógica da fantasia. Trata-se de explicar a sujeição originária do sujeito ao outro, entre o sujeito do inconsciente, sujeito barrado, dividido pelo significante que o constitui, e o objeto (pequeno) a, objeto inapreensível do desejo, que remete a uma falta, a um vazio do lado do outro.
            O Gozo Outro que diz respeito a mulher está no Outro do corpo, mas não em outro corpo, e sim nela mesma. O gozo Outro feminino é vivido no corpo, mas conectado ao que jamais significado, conectado ao verdadeiro furo da estrutura.

            Conforme Soler, 2005, p. 97. cabe ao sujeito assumir ou rejeitar o desejo dela (mãe) uma vocação, sob uma marca de exclusão, sendo o que lhe resta da liberdade, dizer um Não, quem sabe?

 

           

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

SOLER, Colette. O que Lacan dizia das mulheres. Rio de Janeiro: Zahar, 2005, p. 87.

RIBEIRO, Maria Anita. Reunião de Cartel via Skype. Informação Verbal, em 06.07.2014.

ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.

MIRANDA, Elisabeth da Rocha. Tese de Dissertação de Doutorado UERJ: O Gozo no Feminino. Rio de Janeiro.  2001, 358p.

FREUD, Sigmund. Sobre a sexualidade feminina. (1931/1972 ) -v.XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1972.

 



[1] Daniele Baggio, psicanalista Membro da EPFCL, Ms. em Psicanalise pela U.K, Professora e Supervisora Academica Cesmac, danielebaggio@yahoo.com.br
[2] poedeiras: diz-se da galinha que já põe ovos ou que põe muitos ovos. Disponível em: http://www.priberam.pt/dlpo/poedeiras. Acesso em: 29.09.2014.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

EXISTE SAÍDA PRA COMPULSÃO A REPETIÇÃO ?


O presente trabalho versa sobre o conceito de com/pulsão a repetição, através dos ensinamentos de Freud a Lacan, traçando uma análise entre a conceituação teórica e suas implicâncias clínicas. O conceito de pulsão sempre foi descrito na obra freudiana como um dualismo, no início dividido entre pulsão sexual e de auto-conservação e posteriormente como pulsão de vida e morte, e somente ao final da obra freudiana é que este conceito aparece como fusão, amalgamados. A partir do seminário 11 é que Lacan escreve sobre “os quatro conceitos fundamentais em psicanálise” pautados em uma releitura freudiana e com uma autonomia diferencial, após ter se afastado dos pensamentos institucionais. Lacan nos apresenta então o avanço de Freud neste conceito, através do desejo que surge no sujeito em análise e partir do qual se pode desvencilhar da demanda, trazendo uma contribuição sobre o desejo do analista que permite o analisante, diluir e/ou diminuir a compulsão repetição através do simbólico, tendo outra satisfação que não a compulsão a repetição marcada pela pulsão de morte. Este trabalho pretende propor uma leitura para esta problemática clínica sobre a repetição.

Atualmente são frequentes os questionamentos sobre o tema da Repetição, que Freud escreveu particularmente em dois textos em especial, “Recordar, repetir e elaborar” e “Além do Princípio do Prazer”, haja vista que a partir da ideia freudiana esta compulsão a repetição estaria alimentada pela pulsão de morte. E este é o ponto em que justifica a o questionamento que impulsiona este trabalho. Será que o analista em sua intervenção, consegue modificar o circuito pulsional para que o sujeito tenha acesso a outra satisfação que não seja a repetição?

A compulsão a repetição, segundo os ensinamentos de Roudinesco, 1998, surgiu desde muito cedo na obra freudiana, como uma das dimensões constitutivas da noção de inconsciente, impossível de dominar e que obriga o sujeito a reproduzir sequencias (atos, ideias, pensamentos ou sonhos) que em sua origem, foram geradoras de sofrimento, e que conservaram esse caráter doloroso. É proveniente do campo pulsional e possui um caráter de insistência conservadora.

A ideia de compulsão á repetição no Projeto para uma psicologia científica (1895) aparece como algumas quantidades de energia que transpõem barreiras de contato, com isso ocasionando dor, mas também abrindo uma passagem que tenderá a se tornar permanente e como tal, fonte de prazer.

Em suas cartas a Fliess de dezembro de 1896, ele constatou que: incidentes sexuais, geradores de prazer no momento de sua produção, provocam em certos sujeitos desprazer quando ao seu posterior reaparecimento sob forma de lembranças, ao passo que em outros, dão origem a compulsões.

Para Roudinesco, 1998, Freud fez da compulsão a repetição um objeto autônomo de sua reflexão no artigo que ele escreve em 1914 “Recordar, Repetir e Elaborar”. De uma análise para outra essa compulsão a repetição estaria ligada a transferência mesmo não constituindo a totalidade da transferência. É uma maneira de lembrar, mas só que mais insistente, pois na medida em que resiste a uma rememoração cuja conotação sexual lhe desperta vergonha. “É no manejo da transferência”, escreveu Freud apud Roudinesco, que encontramos o principal papel de barrar a compulsão a repetição e transformá-la em uma razão para lembrar.

Neste texto de 1914, Freud relata sobre o esquecimento  dos pacientes na clínica, em que, em alguns casos essa amnésia, como das histéricas, essas coisas esquecidas são contrabalanceadas pelas lembranças encobridoras. “Não apenas algo, mas a totalidade do que é essencial na infância foi retido nessas lembranças” (Freud, 1914, p. 194). Assim como aponta sobre um outro grupo de processos psíquicos tais como: fantasias, processos de referência, impulsos emocionais, vinculações de pensamento, que, como atos puramente internos, não podem ser contratados com impressões e experiências mais tem relação com o esquecer e o recordar. Assim como, os casos em que o paciente não recorda mas expressa isso através da atuação (acting-out). Onde o sujeito reproduz a lembrança como ação, repete sem saber o que esta repetindo. E neste item, Freud cita pela primeira vez o termo “Compulsão a Repetição”, pois este irá trabalhar mais adiante, em 1920, mas aqui a importância do termo esta vinculada na relação da repetição com a transferência e a resistência.

Nos ensinando que, o principal instrumento para reprimir a compulsão a repetição é transformá-la num motivo para recordar, e isso reside no manejo da transferência, em que representa um duelo árduo tanto para paciente o sujeito em análise  quanto  uma prova de paciência para o analista, pois ao trazer alguns conteúdos  a tona, a resistência se ergue com força, como uma barreira. Todavia esta parte do trabalho analítico efetua as maiores mudanças no paciente e distingue o tratamento analítico dos outros.

É no texto de 1920, como citado acima, que Freud aponta a comparação a brincadeira do Fort-da e também através das neuroses de guerra, nas quais os sujeitos não cessam de reviver episódios dolorosos. Essas formas de compulsão a repetição eram realmente o aspecto assumido pelo retorno do recalque. Essa força pulsional que produz a repetição da dor, traduz a impossibilidade de escapar de um movimento regressivo, quer seu conteúdo seja desprazeroso ou não. A partir desse pensamento se postula a ideia de que há uma tendência a um retorno a origem, ao estado de repouso absoluto, de não vida, que pressupõe a passagem pela morte.

A compulsão a repetição se opõe ao deslocamento significante, ao invés de recordar, o sujeito repete, e esta repetição produz uma satisfação inconsciente que está intimamente ligada a pulsão de morte. Por não entrar no discurso, a repetição, não está ligada as leis do processo primário (deslocamento e condensação) mas está por fora, o que se repete então é esta intenção de ligar.

Retornando ao texto de 1914, sobre o Narcisismo, já que no texto, Além do Princípio do Prazer existe uma nota de rodapé que sintetiza a evolução da teoria das pulsões explicando que a hipótese da libido do Eu o obrigou a rever o conceito de pulsão sexual que se transformou em parte de Eros, a pulsão de vida. A originalidade do texto de 1920 é a pulsão de morte e os fenômenos da repetição. Mas na trajetória freudiana este conceito esta em constante revisão e desenvolvimento.

Adiante, em 1932, Freud aborda o último conceito de pulsão em sua obra, em que as pulsões de vida e morte aparecem amalgamadas, fundidas.

Através dos ensinamentos de Jacques Lacan, e os avanços desta temática através de sua perspectiva relida da obra freudiana. Lacan escreve sobre este conceito após sua separação das instituições, o que trouxe uma reorientação ao seu trabalho.

Lacan, no seminário 11, “Os quarto conceitos fundamentais da psicanálise”, faz uma releitura de até então sobre a revisão dos conceitos, apontando os quatro pilares da psicanálise: o inconsciente, a repetição, a transferência e a pulsão. É precisamente aí que encontramos respaldo teórico para contextualizar o referido trabalho. Portanto, não é possível dizer que a psicanálise reduz totalmente a compulsão à repetição, já que a repetição é real, mas a psicanálise reduz o gozo do sintoma. Então, o sujeito se dá conta de suas repetições durante o percurso de uma análise, e é preciso que o analista o conduza a um outro momento lógico em que essa repetição não tenha mais tanta força e, mesmo que ele repita, será de outra forma.

Alguns outros autores lacanianos também vieram contribuir para a compreensão do tema, traçando pontos de vistas emergentes sobre a clínica e sobre a própria visão lacaniana do tema, ao teorizarem sobre o desejo do sujeito em análise, que emerge, e também do desejo do analista, que, por ser um desejo sem objeto como os outros,  é um desejo de se obter a diferença absoluta, que é o nome do gozo do sujeito, que tem como substância de um sujeito uma vez caída as identificações. E uma vez que as identificações caem, aparece o traço distintivo, que produz uma separação com o outro, produz uma diferença, até fazer emergir o que Lacan chamou mais tarde de poema do sujeito.

Abreu Lima (2008), ao se referir ao texto “Angústia e sua Relação com o desejo”, do seminário VIII de Lacan, nos faz refletir sobre as afirmações de Lacan quando diz que o apoio encontrado no desejo, por mais incômodo que seja por sua carga de culpa, é muito mais fácil de sustentar do que a relação com a angústia, uma vez que os incidentes que reativam para o sujeito a perda do objeto só estariam assegurados por um desejo bem provido. Assim podemos encerrar nosso trabalho, confiante de que é possível uma análise levar o sujeito a atravessar a repetição com uma satisfação inédita e, sobretudo, com uma nova forma em relação ao gozo,

A psicanálise não ensina o sentido da vida, mas, ao questionar o sujeito sobre sua história e suas escolhas, permite-lhe um novo modo de se relacionar com sua história, reconhecendo felicidades possíveis, se reconhecendo e sendo ele o autor de sua própria história.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. Escritos sobre a psicologia do inconsciente. Tradução de Luiz Alberto Hanns. Rio de Janeiro: Imago, 2004, p. 133-173.

FREUD, Sigmund. Mais Além do Princípio do Prazer (1920-22) - v. 18. 1ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

FREUD, Sigmund. Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos. (1886-99) - v. 1. 3ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1989, p. 387-547.

FREUD, Sigmund. O caso de Schreber, artigos sobre a técnica e outros trabalhos. (1911/1913). 1ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

IZCOVICH, Luis. Los afectos en la experiencia analítica. Medelin: UPB, 2011, p. 95-130.

IZCOVICH, Luiz. O desejo do analista. Seminário de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano de Fortaleza/CE. Informação Verbal, em Março de 2013.

LACAN, Jacques.  Seminário livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

LIMA, Alba Abreu. Amor e transferência analítica: tiquê e automaton. Seminário de Psicanálise de Joinville/SC. Informação Verbal, em novembro de 2008.

ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998, p.146, 445-450.

 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

um trechinho da minha música

Música: " A palavra é a saída" ,


Refrão:


C       G/B                            Am7
Mil voltas na mesma estrada
            F                                 C
E as palavras que foram faladas
          GB                    Am7
É a saída pra sonhar
                   F                      Am7
E um desejo pra recomeçar

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Mas e você? Seu corpo fala, mas você o escuta?
Sua boca cala, mais seus dedos sangram
Há uma dor no peito, o estômago contrai
O intestino inflama o que alma reclama
Mas e você? Que tem haver com isso?
Com esse desejo de nada, com essa fome que abala
Com essa angústia que mascara.
Mas e você? Até quando vai deixar a vida
Por uma verdade escondida?
Atrás de um fantasma que te ameaça e persegue
...
...O preço que se paga por um desejo traído pode
valer a vida, mas e você? Que quer haver com isso?
Que tem com isso? Aliás, quer saber?
Que super-eu é esse que assombra, a verdade que
arromba a infância mal dita, mas esquecida
Mas e você, o que você quer?
Quer passar por essa dor? Ou nela ganhar e gozar
os deleites da vida?
Mas e você? O que você quer?"

domingo, 18 de novembro de 2012

ANGST: MEDO, ANGÚSTIA e ANSIEDADE EM PSICANÁLISE

ANGST: MEDO, ANGÚSTIA e ANSIEDADE EM PSICANÁLISE


[1],DANIELE BAGGIO;

Este trabalho visa levantar uma reflexão acerca do termo ansiedade e suas traduções segundo a teoria psicanalítica de Freud e Lacan. Buscando através de dicionários, livros, críticas a respeito do sintoma e sua atualidade diagnóstica, traçando um referencial histórico que contextualiza a visão da clínica médica e psicanalítica.

A Ansiedade conforme HANNS, 1996, p. 65 se refere a expectativa. Uma expectativa inquieta por algo que ocorrerá. Podendo ser por uma alegria ou por uma ameaça ou simplesmente pelo desenlace de algo. No dicionário Aurélio, 1993, p. 33  Ansiedade é o estado afetivo em que há sentimentos de insegurança. É só no emprego da linguagem médica que o dicionário a define como receio sem objeto específico. No português nem sempre é possível diferenciar ansiedade e medo. A ansiedade mesmo quando ligada ao medo, se refere a uma inquietação medrosa perante um perigo sem resolução, é uma ameaça que ainda não é imediata, o medo é geralmente uma reação a algo mais imediato.
Freud utiliza o termo Angst  que significa medo, é traduzido para o português como ansiedade (segundo a tradução inglesa, anxiety) ou como “angústia” (de acordo com a tendência francesa, angoisse). Nem sempre é possível diferenciar os termos medo, ansiedade e angústia entre si. Tanto Angst como Furcht temor, podem corresponder a ansiedade e mais raramente a angústia, a rigor, nem um ou outro destes termos correspondem em alemão a ansiedade ou a angústia.
Angst significa medo e indica um sentimento de grande inquietude perante ameaça real ou imaginária de dano.
Furcht significa medo no sentido de receio, temor. Refere-se a objetos específicos.
Para Hanns, 1996, p. 73, há duas teorias freudianas de Angst em que ao longo da obra de Freud encontram-se diversas elaborações a respeito da Angst. Freud após 1925, se refere com frequência as suas duas teorias, embora até certo ponto as teorias se superponham e entrelacem. Até 1925 o termo Angst é entendido como o efeito de um excesso de estímulos (Reize) represados devido a não satisfação pulsional. O sujeito impedido de descarregar a libido sexual sobre sob o acúmulo de excitações, as quais, para conseguir se fizer descarregar, se transformariam em sintomas de medo (ou angustia, ansiedade), provocando sudorese, taquicardia, contrações musculares etc. Circunstâncias externas concretas ou uma maturação ainda insuficiente, impedindo o sujeito de satisfazer livremente seus anseios pulsionais, produziriam então estados de Angst. É antiga a ideia em Freud, de que o excesso de (Reize) é vivido pelo sujeito como algo avassalador que o leva a um estado de medo e desamparo. Freud afirma que, por impedir o sujeito de satisfazer as exigências pulsionais, o recalque acaba por produzir as várias formas de Angst neurótica. Mesmo tendo em 1925/6 reformulado sua teoria sobre a Angst, Freud mantém a ideia de que o sujeito exposto ao excesso de exitação vive uma situação de desamparo, necessitando lidar com o turbilhão de estímulos que o acometem. Após ter desenvolvido a segunda tópica, Freud passa a situar o Eu como local do medo e apresenta outra concepção da relação entre “Recalque” e Angst. Inverte a sequencia anterior recalque produz Angst e afirma que será a Angst que o Eu sente perante o perigo que levará o sujeito ao recalque. Basicamente, medos tais como o temor a castração ou o medo da perda do amor materno é que levarão o sujeito a recalcar suas tendências libidinais.
Mesmo alterando sua concepção sobre os mecanismos de geração de Angst e apesar de empregar o termo ora como designação técnica de um quadro psiquiátrico, ora como descrição fenomenológica de sentimentos, ora numa acepção psicanalítica, a maneira como Freud utiliza a palavra ao longo da obra tende a reunir as mesmas características conotativas que Angst possui no alemão coloquial. Pode se dizer que Angst envolve simultaneamente o sentido de algo antecipatório (neste sentido, semelhante a ansiedade); um fenômeno de caráter intenso, altamente reativo (neste sentido, significando medo) algo que se vincula ao perigo e muitas vezes aproxima-se da fobia e do pavor (neste sentido, assemalhando-se a pânico).
Após estudarmos um pouco sobre o significado do termo, vejamos alguns pontos importantes sobre o nascimento e/ou surgimento da clínica médica e da psicanálise.
 O significado do termo clínica segundo Doron & Parot (1998), “(...) originariamente, a atividade clínica (do grego klinê – leito) é a do médico que, à cabeceira do doente, examina as manifestações da doença para fazer um diagnóstico, um prognóstico e prescrever um tratamento” (Doron e Parot,1998, pp.144-145).
Segundo o artigo “O surgimento da clínica” 2007, o início da clínica médica se fez pela observação e entrevista e esses  procedimentos influenciaram o saber psi. Para a medicina é impossível diagnosticar sem antes saber os antecedentes da doença. Porém nem sempre foi assim, antes de Hipócrates a medicina estava mais ligava as forças sobrenaturais que afetavam o ser humano. Hipócrates criou os primeiros fundamentos científicos para diagnosticar doenças mentais, com base na teoria do desequilíbrio dos quatro humores. Hipócrates inaugurou também a observação clínica, criou a anamnese, definindo-a como a primeira etapa do exame médico. Aliás, o próprio exame médico foi por ele introduzido na clínica, objetivando a obtenção de dados para a elaboração do diagnóstico e do prognóstico.
            Segundo Foucault, ano/2011 foi no início do século XVIII e início do XIX que despontou a clínica médica, este período é marcado por inúmeras descobertas e instrumentalização médica advinda de observações e estudos, que muito contribuíram para os diagnósticos. Porém vale lembrar que a clínica surgiu com Hipócrates e este período seria o de crescimento e auge da medicina.
Mas a preocupação de Foucault era de efetuar uma análise histórica da constituição dos saberes das ciências humanas fazendo uma articulação sobre o discurso médico que embasa o campo de atuação e de produção científica dentro de fatores sociais, políticos econômicos tecnológicos e pedagógicos, e que evidencia as relações discursivas que “fabricam” a doença e seu tratamento.  O corpo torna-se, assim, motivo de controle disciplinar e tecnológico.
Na fase de Genealogia do Poder, Foucault lança um olhar crítico sobre as relações de poder associadas ao saber. Desta forma os discursos tidos como verdadeiros agora são objetos do poder. Esse poder recebe o nome de biopoder, poder sobre a vida. Esse biopoder exerce vigilância sobre a subjetividade e esses sistemas de controle social são praticados tanto pela medicina quanto pela psicologia. Haja vista que a cada dia o controle tecnológico através de modelos tem o intuito de ajustar as distintas materialidades que tem a seu cargo, atuando no cotidiano do sujeito, normalizando a população e regulando as políticas de saúde através de um arsenal técnico cada vez mais especializado.
Desta forma o século XX conta com a abundância de tratamentos sofisticados e o eleva do nível de especificidade médica, se abstendo do leito e fragmentando o sujeito.
Freud imprime então na história algumas inovações na clínica psicanalítica em que há um deslocamento do saber. Não é mais o médico que o detém, mas o cliente, contudo é um saber que não se sabe, é inconsciente. Freud inaugura também a transição entre a clínica do olhar á clínica da escuta. O paciente então através da fala elabora e encontra sua verdade no próprio inconsciente. Outra contribuição de Freud é a revelação em que as doenças não são curadas pelo medicamento, mas pelo médico, pela presença, pela transferência que exerce uma influência psíquica. Freud nos traz ainda a perspectiva de que ao tratar o paciente como sujeito de sua história e de seu sintoma o responsabiliza como tal no adoecimento que se encontra e o implica como sujeito de sua questão e não apenas como objeto.
Desta forma e a partir das contribuições de Freud podemos adentrar um pouco na atualidade. Segundo Ribeiro, 2003/2011, p. 49-53 a partir da segunda metade do século XX podemos observar um enorme avanço científico, principalmente no campo da neurofarmacologia. Os imperativos do discurso capitalista que financia pesquisas que geram novas drogas, que por sua vez precisam ser consumidas, para financiar novas pesquisas, exigem que o médico seja objetivo e seguro, operando, portanto fora do campo da transferência onde o “efeito sujeito” é o que está presente. O aspecto mais sério desse tipo de desenvolvimento indesejável do discurso da ciência a serviço do capitalismo reside no ponto de vista ético. Transformar o sujeito na vítima de seu funcionamento cerebral ou de seus neurotransmissores é irresponsabiliza-lo por sua vida, é troná-lo politicamente amorfo, desacreditado em sua capacidade de mudança. Vemos assim, em nome da ciência, uma regressão conceitual a mais de cem anos atrás.
Lacan em sua conferência “A Terceira” destacou alguns pontos importantes sobre o capitalismo, articulando sobre a ética e a constatação da impossibilidade de pensá-lo apenas como valor de uso. Também articulou em relação ao pulsional fazendo relação com o objeto oral e as fantasias de devoração que faz um deslizamento da posição da posição de consumidor á de objeto consumido.
O gadget é um sintoma do delírio funcional contemporâneo que toma o objeto como fonte de satisfação.
O discurso psicanalítico só pôde avançar através da clínica, onde as histéricas fazem um marco referencial para se compreender o sentido do sintoma, ouvindo o discurso neurótico Freud pôde demonstrar o sentido do sintoma, um sentido inconsciente, ou seja, o sintoma diz alguma coisa, mesmo que o sujeito não saiba disso. Não somente diz mas serve como uma satisfação reconhecida pelo sujeito como um sofrimento, é paradoxal, é uma satisfação sexual e também seu sofrimento. No texto “Os Caminhos da Formação dos Sintomas” 1917/80 Freud nos mostra que, pelos mecanismos de condensação e do deslocamento o sintoma tornou-se uma satisfação substituta de uma série de fantasias e de recordações de experiências traumáticas do início da vida sexual.
A partir de 1920 Freud aponta para a noção de pulsão de morte, para além do princípio do prazer há um real de gozo impossível de ser representado, demonstrando o caráter problemático da realidade psíquica que se expressa no sintoma.
Em 1926/1980 “Inibição, Sintoma e Angústia” Freud apresenta o sintoma como “um sinal e um substituto de uma satisfação pulsional que permaneceu em estado jacente; [o sintoma] é uma consequência do processo de recalcamento” (Freud, 1926/1980, p. 112).
Segundo Dias 2006, no curso da investigação de Freud, ele  introduz a relação altamente significativa entre a geração de angústia e a formação de sintomas, verificando que os dois processos se representam e substituem um ao outro. A partir da análise da fobia de Hans, conclui que a angústia, essência da fobia, provém não do processo de recalcamento, como acreditava anteriormente, mas do próprio agente recalcador; ou seja, a angústia está na origem e põe o recalcamento em movimento e,
consequentemente, põe a formação de sintomas em movimento.
A angústia se manifesta sob a forma de “um medo realístico, o medo de um perigo que era realmente iminente ou que era julgado real” (Freud, 1926/1976,p. 131). A angústia é a reação a esse perigo e o sintoma é criado para evitar o surgimento do estado de angústia.
A angústia é, portanto, uma reação a uma situação de perigo. A reação de angústia sinaliza a presença de uma situação de perigo, e é para fugir a essa situação de perigo que se criam sintomas. O perigo, aquilo que é temido, é evidentemente a própria energia pulsional.
Podemos nos questionar então qual seria a saída para o sujeito emergente deste discurso capitalista e a relação da psicanálise com a felicidade. Para isso podemos adentrar no conceito de desejo que é humano e que não é o mesmo que felicidade. Pois necessidade é um conceito biológico que impele o sujeito ou o organismo a ir em busca de reduzir essa tensão ou satisfação, já o desejo é de ordem psíquica, é desnaturado e como tal pertence a ordem simbólica. Enquanto a necessidade implica a busca em objetos específicos o desejo implica uma relação com o fantasma, inconsciente. Ao fazer um apelo, um pedido o sujeito demanda algo a alguém e além do alimento no caso do bebê que chora com fome vem o acalento, a fala, a mãe o que faz da demanda por alimento ser sempre uma demanda a algo a mais que lhe falta.  A demanda e o desejo fazem aparecer a falta-a-ser. A satisfação do desejo é sempre adiada e nunca atingida, o desejo busca o impossível.
Conforme Lima e Fregonezzi 2006,  o desejo se vê obrigado a buscar outro caminho, a realização. Através de meios-objetos como a fantasia do seio, o sintoma, um beijo, o gozo da droga, o gozo do poder político, o gozo do discurso teórico da fé, o gozo do rico que priva o outro de também ter, o gozo de quem imputa sofrimento a outrem etc. Todas essas formas de realização são marcadas por insatisfações primitivas que se atualizam. O sujeito vive em estado de excitação contínua: prazer e desprazer ao mesmo tempo. A pulsão e o desejo nos diferenciam dos animais estes são seres de puro instinto, seres de necessidade. Os seres humanos por serem desejantes, seres de linguagem são condenados a sentir, primeiro mal-estar e angústia, depois por serem impulsionados para algo que se supõe trazer a felicidade, um estado de completude de não falta.
  A psicanálise não ensina o sentido da vida, mas ao questionar sua história e suas escolhas, permite ao sujeito encontrar um sentido para sua vida, do que possa ser as felicidades possíveis, sendo ele o autor de sua própria história.
Para concluir e exemplificar sobre o desejo na psicanálise, transcrevo um fragmento de um caso clínico da Revista Latino americana de psicopatologia fundamental.  Angélica, médica, procurou a psicanálise apresentando seu próprio diagnóstico, doença de pânico: crises de angústia sem razão aparente, sentia descompasso cardíaco, sudorese, aperto no peito e muito medo de morrer. E aparecem do nada, comenta. Vivendo silenciosamente suas crises, entre as quais sentia-se permanentemente angustiada, conclui o curso de medicina e em seguida casa-se planejando para sua vida ser dona-de-casa e mãe, deixando de lado a profissão que, segundo ela, a expunha a todo tipo de perigo e em particular o pior deles, o confronto com a morte. “Porque se meu medo fosse de leão ou de tigre seria simples, bastaria não viajar a África, mas sendo a morte, como posso exercer essa profissão? E faz a pergunta que dá início ao seu processo analítico, qual a saída para meu problema? Ela interroga o desejo de ser médica paralisado pelo medo do confronto com a morte, tanto a sua quanto do Outro.
Um dia A. acompanha a mãe a uma cirurgia reparadora após a qual subitamente, a mãe vem a falecer. Neste momento ela pensa: Como vou ser médica? A analista questiona o fato dela pensar isso num momento tão difícil. Ela se dá conta do desejo. A. se escondia, jamais usava roupa branca ou levava a maleta; na rua não socorria a ninguém poderia ser um aviso prévio diante da morte. Angélica queria ser a mama, após a morte de sua mãe aparece a fobia como um sinal do próprio desejo. A. engordou 40 quilos e só se vestia de preto mais em seus sonhos aparece magra e vestida de branco. Associando ao sonho A. diz que a engorda dela é uma tentativa de consolar a viuvez. O pai de Angélica dias depois a chama para uma conversa e em sua fala diz algo muito importante para Angélica neste momento, mesmo sem saber. Diz a ela que quer viver seu luto sozinho e pede a A. que siga sua vida. (-Minha filha, sou viúvo!). O pai nesta fala, dá um limite simbólico e importante para o momento. O pai lhe mostra o álbum de foto e ela vê seu peso, estatura de quando nasceu, seu acompanhamento e desenvolvimento, e tira a conclusão que quando bebê só depois de um ano conseguiu engordar por que sua mãe lhe desejou e amamentou. Pensando sobre a nutrição dela, pensa quer ser pediatra para ajudar ela e as outras crianças, a analista questiona outras crianças? Ela ri.
Só no momento em que ficou sem a mãe e quando foi dispensada pelo pai da suposta tarefa de atendê-lo, despossuída da fantasia tão cara de suplência da mãe, é que Angélica finalmente faz das palavras, ação. Faz uma dieta baseada na nutrição para emagrecer e finalmente exerce sua profissão. O medo não desaparece totalmente, mas já não a impede. O medo e o desejo se tornavam motor na peculiar travessia. Ou como disse Lacan o remédio para angústia é o desejo.

REFERÊNCIAS


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DORON, R.; PAROT, F. (orgs.) Psicologia Clínica. Dicionário de Psicologia. Vol. I. São Paulo: Ática, 1998, pp. 144-145.

EDLER, Sandra P. B. “Desejo, Remédio para a angústia” Artigo internet http://www.sumarios.org/sites/default/files/pdfs/61939_7095.PDF Acesso em 11/11/2012.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.33.

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LIMA, Raymundo e FREGONEZZI, Marta. “A Felicidade existe?Freud, a psicanálise e felicidade”.Artigointernethttp://www.espacoacademico.com.br/059/59esp_limafregonezzi.htm. Acesso em 11/11/2012.

OLIVEIRA, Jacqueline, ROMAGNOLI, Roberta e OLIVEIRA, Edwiges. O Surgimento da Clínica Psicológica: Da Prática Curativa aos Dispositivos de Promoção da Saúde. Revista Psicologia, Ciência e Profissão, 2007, p. 608-621.


[1] Psicóloga, Psicanalista, Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano. Mestranda em Psicanálise pela UK. Professora e Supervisora Acadêmica – CESMAC.