sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Real e o Corpo

O REAL E O CORPO
Daniele Baggio[1]
 



O Real e o Corpo: A Clínica Psicanalítica diante dos enigmas do corpo é o título deste trabalho. Inspirado, sobretudo no livro de Luis Izcovich: El cuerpo e sus enigmas, 2010. Sob a perspectiva da metapsicologia do corpo, tendo como objetivo investigar a incidência do inconsciente “Real”[2] sobre o corpo, tomando como exemplo alguns fenômenos psicossomáticos. A psicanálise, portanto se ocupa não de outra coisa senão dos enigmas do corpo. O objetivo desde estudo é compreender a incidência da linguagem sobre o corpo, como um enigma, como um texto para ler, compreender e interpretar como um conjunto de interrogantes.

1.     INTRODUÇÃO

O artigo em questão surge do propósito de dar continuidade - enquanto desdobramento e avanço - da pesquisa De Novo:  o conceito de Com/ pulsão a repetição e suas implicações na clínica psicanalítica  (Baggio, 2014). As conclusões de tal estudo - construído como Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Psicanálise –U.K (Universidade Kennedy) apresentam-se para a ideia aqui proposta como um conjunto de premissas que prepararam e ensejam a discussão em torno da possibilidade de uma ação clínica, dentro de uma perspectiva psicanalítica de Freud a Lacan. Em suma, a perspectiva de um trabalho frente a esse contexto complexo do corpo como um enigma configura-se como nosso objeto de investigação.
Na ocasião, investigamos o conceito de pulsão na Obra de Freud e Lacan, com o intuito de esclarecer questionamentos surgidos a partir da clínica sobre a compulsão a repetição, visando investigar sobre a intervenção do analista diante do circuito pulsional, se o sujeito com o processo analítico poderia obter outra satisfação que não fosse a repetição ligada ou fixada ao trauma.   
O desenvolvimento da pesquisa levou-nos a bordejar algumas questões instigantes a serem pesquisadas acerca da analisibilidade do sujeito tomado pela singular condição de corpo imposta pelo inconsciente. Em termos gerais, objetivamos compreender a expressão do inconsciente estruturado como linguagem e sua relação como inscrição no corpo. Uma vez que o ser sexuado é o gozo de um corpo e já que Lacan articulou que o objeto a como complemento do sujeito e esse complemento se localiza no Outro, no corpo do outro, o sujeito não tem outro remédio que passar pelo circuito pulsional.
Isto designa o sujeito a partir da cadeia significante e de sua estrutura, o modo em que a cadeia inconsciente exerce seus efeitos. O que significa dizer que o modo em que o ser-humano quando vem ao mundo, é uma pura substância biológica será modificada pelo outro operando a passagem do organismo ao corpo pela linguagem.
Conforme o artigo: Lalangue, via régia para captura do Real de Genesini[3] Lacan ora apresenta a palavra alingua ora lalingua, para associar a lala~cão do bebë e que relaciona isto a mediação materna cito:
“Desde a origem há uma relação com lalangue, que merece ser chamada, com toda razão, de matema, porque é pela mãe que a criança se assim posso dizer a recebe. Ela não aprende lalangue.”[4]
Dizer isto significa que lalangue não pode ser equiparada a algum tipo de significação, uma vez que lalangue só se sustenta no mal entendido, em outras palavras: mesmo que a mãe tente traduzir a lalação do bebë de acordo com sua interpretação sempre haverá um lapso, uma falta, entre o que se quer dizer e o que se ouve por exemplo.
Uma vez que a clínica psicanalítica nos convoca a tratar destes enigmas, como seria a intervenção de um psicanalista diante destas questões acerca do REAL.

2.      JUSTIFICATIVA

Assim como Freud, Lacan também se ocupa do corpo, por que o corpo em psicanálise é uma pergunta dirigida ao Outro.
Se a histeria exemplifica o sintoma no corpo, Lacan a chama com um neologismo “Symptraumatise” em francês, este neologismo põe em manifesto a conexão estreita entre sintoma e trauma, a partir do qual se pode dizer que a constituição do sintoma fundamental do sujeito, ligado a neurose infantil, tem como ponto de inserção um trauma. E para Freud o trauma é sempre sexual. Mas não se trata aqui do sexual, corpo a corpo, mas que sintoma e trauma se enodam na medida em que o inconsciente fabrica uma resposta as experiências enigmáticas de gozo no corpo.
Porém o ponto crucial é que a conjunção entre gozo do corpo enigma é fundadora do inconsciente, o inconsciente se constitui quando o sujeito assume o enigma do desejo do Outro, e isto está ligado a uma experiência infantil do corpo.
Conforme Izcovich, 2010, p. 15. Se referindo a Lacan, há duas condições para designar a causa traumática: o gozo inassimilável e a constituição de um enigma, e são estas as duas condições que constituem o caráter solidário do trauma e do fantasma. O enigma em relação com o gozo é a base do fantasma, já que trauma e fantasma são equivalentes. 
Os enigmas do corpo se situam entre dois polos, aqueles que estão relacionados com o silêncio do corpo e aqueles que se encontram ligados a uma exaltação do gozo pelo Outro. Todavia as manifestações do corpo adquire um estatuto de enigma e quando se formula um enigma adquire um caráter de sintoma, que pode ser transitório ou estável.
A psicanálise não se limita a decifrar o inconsciente introduzido ao sujeito em outra dignidade em quanto a seu corpo, nem tampouco pretende tratar as formas atuais de violência e o modo como os corpos são tratados com um desfecho, a experiência analítica nos mostra que mudando a relação do sujeito, concomitantemente se muda também a relação do sujeito com o gozo do Outro.
Porém a justificativa para este esta pesquisa é compreender e aprofundar a evidência em que o trauma se constitui em sintoma pelo efeito do significante que determina a marca do gozo sobre o corpo o que equivale dizer que o significante é meio de Gozo.
Mas não apenas na evidência do trauma que marca o corpo enquanto gozo, todavia elaborar a questões que fazem borda ao inconsciente em si. Tomando como base a citação de Freud enquanto que todo o reprimido é inconsciente porém nem todo inconsciente é reprimido[5], ou seja, haveria dito de outro modo um Inconsciente Real, ou ainda um terceiro inconsciente no sentido de que nem tudo é possível de inscrição, de representação, há sempre um osso, um rochedo, um umbigo intransponível e de inacessível significação, pelas próprias falhas da linguagem. Haveria sempre algo que “não cessa de não se inscrever”[6].  
3.      REVISÃO DA LITERATURA
O corpo e a pulsão
A pulsão não é instinto, instinto corresponde a um programa animal, que marca o corpo geneticamente e determina uma conduta, o conceito de pulsão se distingue fundamentalmente disto já que não é a marca da espécie mas a marca da linguagem. Observando que em sua época se considerou a psicanálise como uma prática escandalosa, não tanto pela descoberta do inconsciente mas pelo postulado na sexualidade infantil. Referir-se a sexualidade infantil, implica em introduzir o corpo, isto exige que delimitemos bem o que se entende por pulsão. Lacan retoma o tema da pulsão a partir do seminário “Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise” em um momento crucial em que começa a ocupar se do conceito de pulsão em psicanálise e que introduz uma perspectiva se dando conta dos termos “montagem pulsional”.
A pulsão para Lacan, é um efeito da demanda do Outro, a experiência é clara neste sentido, a passagem da infância, entre bebê e suas necessidades e a demanda que é dirigida ao Outro, está modelada pelo modo em que o Outro o fala. A demanda do Outro encarnada pela mãe, modela as demandas do bebê, porque parte dirige a ela e logo em seguida aos outros. O plano de necessidade do ser - humano é a necessidade que é da ordem do fisiológico, condição da vida de um organismo. A demanda é a marca de um desejo. Há então entre necessidade e demanda uma hiância: lugar que se infiltra o desejo. O desejo se constitui um pouco antes da demanda. E isso implica duas dimensões: por um lado, que o desejo da criança se constitui a partir do desejo materno que marca a necessidade da criança que introduz significantes. Pelo outro, que a criança se apropria os significantes do Outro, o que tem conseqüências sobre a necessidade que se converte em demanda. A demanda é a marca de um desejo, marca que se inscreve no corpo, a marca que esse Outro marco o corpo da criança com seus cuidados. Por isso, não existe progressão natural, não se passa da pulsão oral, a uma pulsão anal e logo a ordem fálica por simples maturação. Não se trata de uma programação cronológica. esta inscrição no corpo aparece em definida em Freud como zonas erógenas.
Este termo em Freud de zonas erógenas vão neste sentido. O corpo está libidinizado, erotizado de um modo uniforme. Pelo contrário, certas zonas erógenas são prevalentes, diferem de um sujeito a outro e para um mesmo sujeito ditas zonas não são intercambiáveis, muito pelo contrário, há uma fixação em zonas erógenas ao ponto de constituir uma satisfação do corpo e são bases determinantes da fixação de um sintoma.
Isto é o que constitui o traço perverso de todo sujeito. Há uma dimensão de perversão generalizada que está determinada por esta estrutura de inscrição de significante no corpo. A exigência é satisfazer o que a zona erógena reclama. A fixação da zona erógena comemora a inscrição do significante no corpo que determina um modo específico de satisfação.
Este é o esquema que Freud traçou para pulsão e que tem conseqüências decisivas para a orientação da psicanálise. E como se trata das pulsões e não da pulsão definitiva, Lacan escreve a pulsão a partir da relação de um sujeito marcado pelo significante em conexão com a demanda do Outro para alcançar a satisfação. Mas precisamente, se existe uma zona do corpo prevalente ligada a essa demanda do Outro, dita zona do corpo tem afinidade com uma borda, borda do corpo.

O corpo: R,S,I

Conforme Izcovich, 2010, a primeira concepçõ de Lacan acerca do corpo corresponde ao “Estádio do Espelho” uma vez que se ocupa de artiular sobre prematuridade da concepção do Eu que vem através do Outro, através da imagem, em outras palavras, diante do espelho o sujeito se depara com o Eu a medida que reconhece o Outro, ou ainda, a identidade humana está dada ao menos no início da vida pelos limites da imagem (identidade imagnária). Porém depois de 1953, Lacan escreve sobre este corpo sutil, que não se trata de um corpo puramente imaginário. Mas um corpo que passa  do imaginário ao simbólico para constituir um conceito de sujeito, ou seja, a ideia de Lacan é que o sujeito é um efeito do significante que extrai do Outro. O simbólico por sua vez exerce seus efeitos sobre o imaginário. Porém é necessário lembrar que a linguagem não sustenta uma garantia absoluta acerca da tradução ou da significação que se propõe, há sempre uma falta. Isto é, embora Lacan já tenha nos provocado com Lalangue já sabemos que por mais aproximação que exista entre a expressão da criança e a mãe, há sempre um falha.
Um outro ponto importante é pensar que para Lacan, a função paterna estabelece uma função de castração, barreira a este Outro e que isto é fundamental na estruturação psíquica, uma vez que a função paterna introduz a dimensão de um direito ao gozo e paradoxalmente o significante introduz uma causa de gozo. A castração em Lacan não é obstáculo, é impossibilidade de gozo que abre uma via do desejo possível. Acreditar na ideia que o saber inconsciente afeta o corpo, é sustentar a ideia de que o sujeito é efeito do significante mas o inconsciente promove um efeito no corpo. Lacan usa uma fórmula em “posição do inconsciente”: o trauma é a inscrição de um significante que comemora o instante do gozo. Nesse sentido, há uma dimensão em que a inscrição do significante produz um efeito de memória que condiciona a repetição. Existe no significante do trauma um saber sobre o gozo a repetir. Há então um laço íntimo entre o sintoma, como modalidade de gozo e o trauma como um gozo irruptivo. O sintoma inclui o trauma.

FPS em Psicanálise

Apesar de Freud, não ter falado diretamente do FPS “fenômeno psicossomático” é em sua revisão literária que encontramos vários aportes para desenvolver tais questões. Arranz, 2009 nos orienta neste percurso já que teceu uma publicação ddicada a fazer esta didática revisão em Freud. Segundo a autora o FPS pode ser pensado em Freud fazendo uma relação direta a teoria do Eu, da Pulsão e do Narcisismo. Uma vez que localizaria o FPS ao auto-erotismo como uma lesão de destruição do órgão sobre a necessidade. Dito de outro modo, poderíamos pensar que o FPS estaria remetendo a uma época do infantil que o sujeito encontra seu prazer na relação com o próprio corpo. Quando Freud escreve o texto de 1915 sobre a pulsão e seus destinos, descreve alguns destinos comuns para as pulsões do sujeito, seriam elas: o retorno sobre a própria pessoa “masoquismo”, para o Outro “Sadismo”, o Recalque e a Sublimação. Deste modo podemos compreender o FPS conforme um destino de masoquismo, em que o sujeito encontra em seu próprio corpo seu  gozo.
Mais adiante no texto de 1920 “ Mais Além do Princípio do Prazer”, a autora compreende que o FPS estaria fusionada (lesão) com a pulsão de morte e a tentativa de (inscrição) com a pulsão de vida, de modo que o FPS estaria “fora” do recalcado e sua fixação seria como um signo. Relembrando de algumas pontuações de Freud neste texto, sabemos que ele escreve o Mais Além do Princípio do Prazer para dar conta de alguns aspectos clínicos tais como a repetição em que o que ele havia escrito anteriormente não havia sido suficientes, refiro-eme a máxima de que uma psicanálise seria passar o conteúdo inconsciente para a consciência e assim obteveríamos um efeito, neste texto Freud mostra com o exemplo de alguns pacientes através da repetição que existe algo a mais, ou seja, a satisfação da pulsão de morte estaria neste Mais Além. Portanto, pensar clinicamente em alguns casos em que a pulsão de morte deixa suas marcas, nos é sempre um desafio. [7]


4.     CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que surge então como questão é que haja  u dispositivo que toque o Real ao Real. O analista podendo intervir não só apontando o recalcado mas ao ponto de modificar o modo de satisfação de um sujeito com seu inconsciente. Para que obtenha um novo modo de satisfação, uma nova identidade, que não seja mais um sintoma auto-erótico
Mais ainda uma psicanálise se ocupa de tratar o Real pelo simbólico, de modo que aquilo que não cessa de se increver, se escreva ainda que não a plenitude, mas que estes alcances possíveis retratam um efeito no sujeito, no corpo, na angústia e no modo de se relacionar com seu o Gozo.
Conforme, Mucida 2012 é a insistência do Real que permitiu a invenção do dispositivo analítico e obriga os analistas a revisitarem sua prática e os conceitos com os quais operam. E neste caso operar com a interpretação tendo em vista o Real fora de sentido, promovendo um saber fazer com o Real que parasita o gozo, com efeitos sobre a satisfação, ajudando o ser falante a se desembaraçar no mundo, ainda que não seja um mundo de representação.


5.     REFERÊNCIAS

ARRANZ,Z.L. La perspectiva freudiana Del fenômeno psicossomático. Buenos Aires: Letra viva, 2009. 174p.
BAGGIO.D. De Novo: O conceito de Com/Pulsão a Repetição e suas implicações na clínica psicanalítica. Campo Grande; Life, 2014.
GENESINI T. GÓIS E; UYENO E; UENO M. Lalangue: via régia para captura do Real. Disponível em: http://psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/LALANGUE.pdf. Acesso em: 06/04/2018.
IZCOVICH, L. El cuerpo y SUS enigmas. Medelin: UPB, 2009.107 p.
LACAN, JACQUES.  Os Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969.
MUCIDA, A. Espaço da interpretação e inconsciente Real. Revista Stylus: A Lógica da Interpretação. Nov. 2012.n.25.



[1] Psicanalista, membro da EPFCL, Ms. em Psicanálise pela U.K, Psicóloga.
[2] Inconsciente Real: tese trabalhada por Lacan para designar o que está fora de sentido.  
[3] Disponível em: psicanaliselacaniana.com/estudos/documents/LALANGUE.pdf
[4] Jacques Lacan: Conference ET entetiens dans dês universutés nord-americaines. Scilicet n. 6;7, 1975, p. 42-45. Apud Genesini.
[5] FREUD. S. El yo y El ello. En Obras Completas. Buenos Aires, Amorrortu Editores, 2000, t. XVIII, pág. 25. Apud    ARRANZ, 2009.
[6] LACAN, J. Escritos, 1962.
[7] Vale lembrar que o auto-erotismo acontece posteriormente a a relação do sujeito com o Outro. Isto é, justamente porque o sujeito já experienciou algo com o Outro que pode “aprender” sobre o auto-erotismo. 

terça-feira, 22 de agosto de 2017

De-pressão em Psicanálise

DE/PRESSÃO EM PSICANÁLISE

Daniele Baggio Silva de Menezes[1]

            O presente trabalho versa sobre o que se seria a "depressão" pela ótica da psicanálise de Freud a Lacan e como seria este possível tratamento, fazendo uma crítica em relação a precipitação dos diagnósticos acerca deste "mal-estar" que nos irrompe.
            A priori é importante pensar que existe uma diferença em relação a questão do diagnóstico entre psicanálise e DSM. A depressão para a psicanálise aponta primordialmente para uma estrutura (neurose ou psicose).
            Em Freud podemos re-ler "luto e melancolia" (1915-1917) onde descreve a diferença entre um e outro. Todavia, tanto o luto quanto a melancolia na maioria das vezes está relacionado a uma reação diante de uma perda significativa, que pode ser de um ideal ou de até mesmo de uma abstração.
            Conforme Siqueira 2007, ao citar Freud neste texto, retrata que se o luto implica um trabalho de elaboração (Traüerarbeit) frente a uma perda significativa, não sendo, em princípio, patológico, na melancolia não há a possibilidade de simbolizar a perda, tratando-se de uma perda de natureza mais ideal.
            A melancolia estaria dentro do que chamamos de uma estrutura psicótica, se caracteriza por um desânimo profundamente penoso, cessação de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda a produtividade, e uma diminuição dos sentimentos de autoestima – “sentimento de estima de si” – a ponto de encontrar expressão em se recriminar e em se degradar, culminando ainda numa expectativa delirante de punição. No luto, “a perturbação da estima de si” está ausente, assim como a expectativa delirante de punição.
            Da mesma forma, a perda que se apresenta no luto diz respeito a uma perda objetal, já na melancolia, a perda objetal transforma-se em uma perda relativa ao eu. Freud (1917[1915], p. 251) afirma que: “no luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio eu”.
            Podemos ainda pensar no texto de Freud “inibição, sintoma e angústia” (1926-29/2014) em que ao descrever os fenômenos patológicos, Freud difere sintomas e inibições. E conforme esta compreensão a depressão estaria situada como uma inibição, uma vez que caracteriza-se por: “ uma relação especial com a função e não necessariamente algo patológico, pode –se também chamar de inibição a restrição normal de uma função. Já o sintoma indica a existência de um processo patológico, porém,  uma inibição pode em alguns casos, ser um sintoma”. (FREUD, 1926/29- 2014,  p. 14).  
            Desta forma, Freud p. 16 (1926/29-2014) conceitua a inibição como uma limitação funcional do Eu, limitação que pode ter causas muitos diversas, ou seja, são limitações da função do Eu por precaução ou devido ao empobrecimento de energia, que tem início a dificuldades não solucionadas.
            Lacan ao falar acerca da depressão, no seminário 7 “a ética da psicanálise”, 1988, p. 385, considera que o sujeito trai sua via ou em outras palavras usa o aforismo: covardia moral ao referir-se a única culpa legítima do sujeito. Explico: em algum momento de sua vida, o sujeito abriu mão de algo de seu desejo. Cedeu do desejo. E isto tem conseqüências complicadas.
            Por vezes, tais consequências levam “tempo” para serem manifestadas. Por isso, não é incomum atribuir a depressão á tristeza, ao luto e até a melancolia. Porém tais diferenças são primordiais para tal compreensão e diagnóstico.
            É viável pensar também que para a psicanálise o "adoecimento" tem caráter de causalidade, ou seja, há um evento que o sujeito descreve-nos enquanto "trauma" que localiza-se o início de seu sofrimento, ainda que sejam enigmáticos. Apesar de sabermos que a historicidade do desencadeamento não fornece diretamente seu sentido, ele existe. Ou ainda como cita Dunker, 2002, p. 135 "os sintomas desencadeados após um período de incubação ou latência que estiveram intimamente relacionados ao trauma e acrescentamos, a estrutura, o que então corroborava a idéia de aqueles sintomas tardios  seriam como que versões de uma mesma geratriz".
            Outra ponto importante de se destacar é que para a psicanálise o diagnóstico é condição de entrada as entrevistas preliminares, este diagnóstico inclui a compreensão acerca das estruturas clínicas, pela via da transferência.
            Desde, 1896 em seu "Rascunho K" Freud aponta para a importância clínica de se diferenciar  Neurose de Psicose. A questão do diagnóstico diferencial é postulada a partir de parâmetros éticos, ou seja, é preciso diagnosticar para tratar. Cito-o: “Estamos, portanto, no terreno da ética: não se trata de diagnosticar para classificar”. (FREUD, 1913, p.126).
             
            Há ainda  uma outra questão necessária, a da atualidade das depressões. Para este ponto articulo com Maria Rita Kehl em seu livro "o tempo e cão", onde retrata um tipo de homem contemporâneo que vive ao mesmo tempo, obscuro e brilhante, ativo e miserável, que lida com o tempo com o esperado e o inesperado e que por sua condição incerta incorpora todas as contradições: potência e impotência, resignação e revolta, ordem e desordem. Um homem de voz velada, e isto nos preocupa! Agindo como se estivesse fora da vida e do mundo por que seu mundo está além do possível.
            Refere-se ainda a questão do tempo em que vivemos, o tempo da impaciência e não reflexão, é tempo da rapidez e da "realização", das máquinas que nos governam. Mas o "depressivo" se recusa a fazer parte deste tempo. Se recusa e se rebeldia a "falta do que não existe". Nos convoca a pensar acerca da depressão na contemporaneidade como sinalizador do mal-estar na civilização que desde a Idade Média foi ocupado pela melancolia ou seja, a uma confluência dos afetos em que a "a lembrança de uma coisa aliada ao desejo desta mesma coisa".  Este sujeito "deprimido" encontra uma forma de dizer não a esta lógica, porém de maneira muito punitiva a si. Pois a cada vez que o sujeito cede de seu desejo, a culpa cobra seu preço.
            Podemos então refletir como seria um tratamento possível para a depressão. Conforme         Sonia Alberti (2000, p. 46) o discurso do analista tem o sentido de subverter a "falta" e permitir que advenha o desejo. Só há desejo se há falta. Porém para que isso aconteça o sujeito precisa se opor ao acovardamento e estar disposto a pagar um preço por ser desejante. Porém pagar um preço de sustentar o seu desejo, dá ao sujeito efeitos terapêuticos, emponderamento e emancipação.
            A psicanálise propõe uma escuta para estes sujeitos, acenando com o caminho do desejo e utilizando do aforismo lacaniano "o melhor remédio para a angústia é o desejo" (1926-63, p. 115). Uma vez que a depressão é oposto ao desejo e faz o sujeito ter uma letargia efeito de evitar a falta-desejo.






REFERËNCIAS:
ALBERTI, S. Depressão: o que o afeto tem a ver com isso? In: Atas das Jornadas Clínicas para o Corte Freudiano, dezembro de 1989, p. 102-9.
DUNKER, C. O Cálculo neurótico do gozo. São Paulo: Escuta, 2002,p. 135.
FEDIDA, Pierre. O vazio da metáfora e o tempo do intervalo em depressão.trad: Martha Gambini. São Paulo; Escuta, 1999. p. 71.
FREUD, Sigmund. Inibição, sintoma e angústia, o futuro de uma ilusão e outros textos. (1926/29) trad: Paulo Cesar de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. p. 14-123.
FREUD, Sigmund. Publicações Pré-Psicanalíticas e Esboços Inéditos. (1886-99) - v. 1. 3ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1989, p. 387-547.
FREUD, Sigmund. O caso de Schreber, artigos sobre a técnica e outros trabalhos. (1911/1913). 1ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
FREUD, Sigmund. “Luto e melancolia” (1917 [1915]). ESB, v. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: aatualidade das depressões. São Paulo: Boitempo, 2009. p. 194-298.
LACAN, Jacques. O Seminário, livro: 7.trad: Antonio Quinet. Rio de  Janeiro; Jorge Zahar, 1988, p. 385.
_____ O Seminário, livro 10 - A angústia (1962-63), texto estabelecido por Jacques Alain-Miller; versão final Angélica Harari; tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
SIQUEIRA, Érica de Sá Earp. A depressão e o desejo na psicanálise.Artigo internetDisponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812007000100007Acesso em 16/08/2017.




[1]Mestre em Psicanálise, Psicóloga, Psicanalista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Professora  Acadêmica -CESMAC (danielebaggio@yahoo.com.br)

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Repensando a clínica: (atr)avessando os limites de uma formação tradicional em psicologia

REPENSANDO A CLÍNICA: (ATR)AVESSANDO OS LIMITES DE UMA FORMAÇÃO TRADICIONAL EM PSICOLOGIA

Daniele Baggio Silva de Menezes[1]

            A idéia deste trabalho surge a partir de um questionamento acerca da prática enquanto formação em psicologia. Vislumbrando através de reflexões pessoais e em equipe a "atualização" deste cenário, traçando um referencial histórico que contextualiza a visão da clínica médica "tradicional" até os dias atuais e seus desafios.
            Antes de iniciar é válido lembrar que só con(sigo) pensar nesta perspectiva fazendo uma reflexão pessoal sobre minha tão solitária[2] e singular trajetória  neste percurso.  E embebecida da fonte psicanalítica tão próxima a mim e ao que acredito é que rascunho o re-pensar este "atr(avessamento)".
            Como a teoria de Freud e Lacan me guia e me sustenta pela ótica que vejo o mundo, inicio desde então, mas também com a ajuda de Foucault no Nascimento da Clínica para todavia paradoxalmente atravessarmos o desafio atual e futuro, fazendo psicanaliticamente o caminho inverso, re-verso, avesso, ou seja, de trás para frente.
Vejamos Foucault, 1963/2011, o início da clínica médica despontou no final do século XVIII e início do século XIX com as inúmeras descobertas e instrumentalização médica advinda de observações e estudos que muito contribuíram para os diagnósticos. Porém vale lembrar que a clínica surgiu com Hipócrates e este período seria o de crescimento e auge da medicina. O início da clínica médica se faz pela observação e entrevista e esses procedimentos influenciaram o saber psi.
Em outras palavras o significado do termo clínica segundo Doron & Parot (1998), “(...) originariamente, a atividade clínica (do grego klinê – leito) é a do médico que, à cabeceira do doente, examina as manifestações da doença para fazer um diagnóstico, um prognóstico e prescrever um tratamento” (Doron e Parot,1998, pp.144-145).
Para a medicina é impossível diagnosticar sem antes saber os antecedentes da doença. Ao menos era assim antigamente. Neste ponto de an(coragem) que nos detemos, para clarear as idéias repensadas neste esboço. Ora o que ocorre na atualidade clínica psi que nos limita então, seria o espaço físico? O tradicional dito pelo social seria isto?
Conforme o dicionário da língua portuguesa o termo tradional significa "algo relativo a tradição ou conservado por ela ou ainda transmissão oral de lendas, fatos, costumes, etc, tudo o que se sabe por uma transmissão de geração em geração, passando de boca em boca." (Melhoramentos, dicionário da língua portuguesa, 2006, p. 514)
Fazendo referëncia ao artigo o surgimento da clínica (2007) o Conselho Federal de Psicologia, em uma de suas pesquisas, apresentou um dado significativo sobre a atuação do psicólogo no Brasil. Entre os psicólogos (75%) que estavam exercendo a profissão na data da pesquisa, a maioria (54,9%) se dedicava à clínica em consultório, e 12,6% atuava com Psicologia da saúde, sendo que, nesse campo, a prática, na maioria das vezes, também é clínica. Mas, anterior à discussão sobre a atuação do psicólogo, no Brasil, uma questão nos parece prioritária: o que é Psicologia clínica?
Dutra (2004) revela que alguns conceitos são pertinentes à prática clínica, como escuta clínica, sofrimento psíquico, subjetividade.
Neste viés podemos pensar que atravessar os limites do tradicional seria avançar? já sabemos que a chamada clínica amplicada por assim dizer esta cada vez acontecendo nos diversos cenários, uma vez que a compreendemos  como uma postura ética e política diante do sujeito humano. Não um local.
Todavia a  proposta deste trabalho é instigar reflexões acerca disto, mas também pensar sob uma outra perspectiva a de que estes limites talvez não sejam as barreiras do espaço físico, mas sim os impedimentos próprios, psíquicos, limitados a pensar a psicologia clínica apenas desta ou daquela maneira (tradicional, amplicada). Antiga - moderna.
Ensimesmar-se  a refletir,  falar, elaborar, escrever, transmitir de dentro para fora uma posição, uma saída, uma alternativa para atravessar estes limites é também uma possibilidade de atravessamento obtida através da clínica. Digo, do próprio processo psicoterápico, psicanalítico...
Uma vez que tantos pré-conceitos que  temos a depor, de nossa miséria humana. Se faz possível pela clínica a nossa, dos psi(s) sobretudo.  Os pré-conceitos a atravessarmos iniciam por nós mesmos,  pela própria profissão, que é diversa, E o que  diverge desde sempre causa angústia, inquietação, frustração, críticas.
Freud  em seu texto "O Estranho" nos ensina que:  “o estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há muito familiar” (Freud, 1919  p. 300). Isto é, reprimir, projetar o estranho que habita em nós é a principal via que devemos refletir. Pois são nestes disCURSOS que habitamos e somos chamados a transmissão. A clínica é e sempre será um desafio. Mas não um desafio externo, comum, um desafio particular. De atravessamento dos próprios limites e pré-conceitos.
Na minha pequenês singularidade proponho dizer que:  Não há outro re-pensar da clínica senão o próprio. No sentido de um apropriamento de intrínsecas questões internas que se limitam, sem mesmo que o sujeito se deflagre com isso. Os limites e impedimentos que quiçá a psicologia precisa atravessar são nada menos que os do próprio umbigo. E isso não se constrói pelo externo, pela prática articulada sem reflexão, sem a tradição da escuta do sofrimento das mazelas humanas, pela via das histórias, dos antecedentes familiares que desconhecemos em nós mesmos. Não se trata do Outro, se trata de cada um de nós, primeiro.
Fazer uma clínica diferente, diversa, aberta só é possível por ela mesma, seu objeto ético prático para adiante conseguirmos este atravessamento enquanto campo.
Parece óbvio o que estou dizendo, escrevendo, pensando, insistindo. Mas o óbvio não tem sido feito e talvez os limites estejam aparecendo cada vez mais. No externo, no social, como todo sintoma.
 Retorno a Freud em Recordar, Repetir e Elaborar (1914) quando aborda que o principal instrumento para cessar a repetição é transformá-la num motivo para recordar. Ou correremos o risco da repetição do mesmo, do "atual" que é antigo.
            Para terminar hoje este trabalho, sabido que seu desafio é ainda de muito avançar detenho -me a arte e a poesia que  desde sempre nos antecipam, escolho Manoel de Barros, meu conterrâneo, de raíz, de familiar em seu livro sobre nada (1996).

É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.
Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora.
(Manoel de Barros, 1996).




REFERÊNCIAS:
BARROS,Manoel. Livro sobre nada. Rio de Janeiro, Ed. Record, 1996.
DORON, R.; PAROT, F. (orgs.) Psicologia Clínica. Dicionário de Psicologia.Vol. I. São Paulo: Ática, 1998, pp. 144-145.
DUTRA, E. Considerações sobre as significações da Psicologia clínica na contemporaneidade. Estudos em Psicologia, v. 9, n. 2, pp. 381-387, 2004. 
FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. 2. ed. Rio de Janeiro: Artmed, 1963/2011.
FREUD, Sigmund. O caso de Schreber, artigos sobre a técnica e outros trabalhos. (1911/1913). 1ª ed. Rio de Janeiro: Imago, 1969.
FREUD,Sigmund. “O Estranho” (1919) Vol.17, Rio de Janeiro: Imago, 1969, 297-324.
MELHORAMENTOS dicionário: língua portuguesa. São Paulo: Ed. Melhoramentos, 2006, p. 514. 
OLIVEIRA, Jacqueline, ROMAGNOLI, Roberta e OLIVEIRA, Edwiges. O Surgimento da Clínica Psicológica: Da Prática Curativa aos Dispositivos de Promoção da Saúde. Revista Psicologia, Ciência e Profissão, 2007, p. 608-621.
ROUDINESCO, Elisabeth e PLON, Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.



[1] Mestre em Psicanálise, Psicóloga, Psicanalista Membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, Professora e Supervisora Acadêmica -CESMAC (danielebaggio@yahoo.com.br)
[2] Lacan, 1964 utiliza esta expressão "tão sozinho quanto sempre estive" para referir-se a singularidade da experiência de um sujeito em se fazer ATO.